Por que o desenvolvimento sustentável precisa fazer sentido no território?

, Regina May 12 de fevereiro de 2026
 Por que o desenvolvimento sustentável precisa fazer sentido no território?

O desenvolvimento sustentável só acontece de verdade quando faz sentido no lugar onde a vida acontece. Você já parou para pensar como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável se conectam com a realidade do seu território?.

Por Regina May
Tempo de leitura: 5-6 minutos

O que vamos ver nesse artigo?

  1. Como os ODS foram construídos com participação global e popular
  2. O que significa territorializar a Agenda 2030
  3. Por que o desenvolvimento sustentável precisa fazer sentido local
  4. A experiência brasileira e a criação do ODS 18                         
  5. O papel dos territórios na aceleração dos ODS
  6. A contribuição de cada signatário e signatária em Santa Catarina
  7. O Movimento ODS SC como articulador da transformação local

1.  Como os ODS foram construídos com participação global e popular?

Antes de compreender por que os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável precisam fazer sentido no território, é importante entender como eles surgiram.

Os ODS não foram definidos apenas por decisões de governos ou por organismos internacionais isolados. Sua construção resultou de um amplo processo participativo conduzido no âmbito das Nações Unidas, que incluiu conferências globais, como a Rio+20, consultas públicas internacionais, diálogos multissetoriais e pesquisas abertas realizadas com a população de diferentes países.

Esse movimento buscou identificar, de forma coletiva, quais eram os principais desafios estruturais que afetavam a humanidade, como pobreza, desigualdades, degradação ambiental, acesso a direitos básicos e crises econômicas e sociais. A Agenda 2030 nasce, portanto, de uma escuta global e plural, construída com a participação de governos, sociedade civil, academia, setor privado e cidadãos.

Se a concepção dos ODS veio da base social, sua implementação também precisa acontecer na base.

É nesse ponto que a territorialização da Agenda 2030 se torna essencial: transformar compromissos globais em ações concretas nos lugares onde as pessoas vivem, trabalham e se relacionam.

Compreender essa origem coletiva é o primeiro passo para entender por que o desenvolvimento sustentável só se torna real quando faz sentido no contexto local.

2. O que significa territorializar os ODS?

Territorializar os ODS significa adaptar metas globais às realidades locais, considerando características sociais, econômicas, culturais, ambientais e institucionais de cada território.

Embora os ODS sejam universais, os desafios não se manifestam da mesma forma em todos os lugares. Problemas urbanos diferem dos rurais. Regiões costeiras enfrentam riscos distintos de regiões serranas. Municípios com maior renda lidam com questões diferentes daqueles em situação de vulnerabilidade social.

Por isso, territorializar não é reduzir a Agenda 2030, é torná-la aplicável, concreta e transformadora.

3. Por que o desenvolvimento sustentável precisa fazer sentido local?

O desenvolvimento sustentável só acontece quando as soluções dialogam com a realidade vivida pelas comunidades.

Projetos desconectados do território tendem a gerar baixo impacto, pouca continuidade e reduzido engajamento social. Já iniciativas construídas com participação local:

  • respondem a necessidades reais
  • fortalecem redes comunitárias
  • geram pertencimento
  • ampliam a sustentabilidade das ações ao longo do tempo

Além disso, é no território que os impactos podem ser medidos com mais clareza, permitindo acompanhar mudanças reais na qualidade de vida das populações.

4. A experiência brasileira e a criação do ODS 18

O Brasil desempenhou um papel relevante no processo de territorialização da Agenda 2030 ao realizar a adaptação das 169 metas globais propostas pela ONU para a realidade nacional. Esse movimento demonstrou, na prática, que a implementação dos ODS exige leitura contextualizada das condições sociais, econômicas, ambientais e institucionais de cada país.

Das 169 metas globais, 167 foram consideradas pertinentes ao contexto brasileiro. Entre elas, 124 passaram por ajustes, seja para adequação à realidade do país, maior clareza de redação ou quantificação mais precisa dos objetivos a serem alcançados.

Em alguns casos, o Brasil estabeleceu compromissos mais ambiciosos que as metas globais, refletindo avanços já conquistados e a intenção de seguir progredindo. Um exemplo é a meta relacionada à mortalidade materna, cuja referência global admite até 70 mortes por 100 mil nascidos vivos, enquanto a meta nacional foi definida em no máximo 30 mortes por 100 mil nascidos vivos.

Esse processo de internalização das metas abriu caminho para um avanço ainda mais significativo: a proposição do ODS 18, voltado à promoção da igualdade étnico-racial, tema estruturante da realidade social brasileira e que não estava contemplado de forma específica entre os 17 objetivos globais.

A criação do ODS 18 reforça que territorializar a Agenda 2030 não significa apenas adaptar indicadores, mas também reconhecer desafios históricos próprios e transformá-los em compromissos públicos de desenvolvimento sustentável. A iniciativa reconhece que, embora a Agenda global trate da redução das desigualdades, a realidade brasileira exige um olhar específico sobre o racismo estrutural e suas consequências sociais, econômicas e institucionais.

A criação do ODS 18 demonstra que territorializar os ODS também significa:
> reconhecer desafios históricos próprios
> ampliar a leitura das desigualdades
> produzir respostas alinhadas à realidade nacional
 

Mais do que adicionar um novo objetivo, o ODS 18 reforça que a Agenda 2030 é dinâmica, viva e precisa dialogar com contextos concretos.

5. O papel dos territórios na aceleração da Agenda 2030

Cidades, estados e regiões são espaços decisivos para o avanço dos ODS. É neles que políticas públicas são implementadas, serviços chegam à população e parcerias se tornam operacionais.

Quando a Agenda 2030 é incorporada ao planejamento territorial:

  • decisões públicas tornam-se mais estratégicas
  • recursos são direcionados com maior eficiência
  • indicadores permitem monitorar avanços reais
  • diferentes setores passam a atuar de forma articulada

Assim, o território deixa de ser apenas cenário e passa a ser protagonista da transformação.

6. O papel de cada signatário e signatária na localização dos ODS em Santa Catarina

A territorialização da Agenda 2030 depende da atuação conjunta de todos os setores da sociedade.

  • Poder público integra os ODS ao planejamento, orçamento e políticas públicas.
  • Empresas alinham estratégias, operações e investimentos a práticas sustentáveis.
  • Organizações da sociedade civil mobilizam comunidades e alcançam populações vulneráveis.
  • Instituições de ensino produzem conhecimento, formam cidadãos e desenvolvem inovação.
  • Cooperativas, sindicatos e organizações de classe fortalecem práticas econômicas sustentáveis.
  • Pessoas físicas influenciam culturas, escolhas e comportamentos cotidianos.

Quando esses atores atuam de forma conectada ao território, os ODS deixam de ser uma agenda distante e passam a orientar decisões reais.

7. O Movimento ODS Santa Catarina como articulador da transformação local

Nesse contexto, o Movimento ODS Santa Catarina exerce um papel essencial como articulador, mobilizador e integrador dessa rede de atores comprometidos com o desenvolvimento sustentável.

Ao promover letramento em ODS, incentivar parcerias, apoiar a mensuração de impacto e fortalecer a atuação territorial, o Movimento contribui para que a Agenda 2030:

  • saia do discurso
  • gere evidências de transformação
  • alcance diferentes regiões do estado
  • produza mudanças reais na vida das pessoas

Mais do que difundir conhecimento, o Movimento atua para conectar esforços e acelerar resultados.

Resumindo

A Agenda 2030 nasceu de uma construção coletiva global e sua realização depende de transformações concretas nos territórios.

Territorializar os ODS é reconhecer que o desenvolvimento sustentável não acontece apenas em acordos internacionais, mas no cotidiano das cidades, organizações e comunidades.

Em Santa Catarina, cada signatário e signatária tem a oportunidade de transformar compromisso em ação.

E, ao fortalecer essa rede, o Movimento ODS Santa Catarina reafirma seu papel como ponte entre o global e o local, acelerando caminhos para um futuro mais justo, inclusivo e sustentável.

Acompanhe nossa trilha de conhecimento mensal sobre os ODS. No próximo artigo, vamos conhecer mais a fundo as metas, indicadores e evidências.

Fontes: IPEA, IBGE, PNUD Brasil


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Assessora Executiva do Movimento ODS Santa Catarina, com atuação focada em desenvolvimento comunitário e sustentável desde 2001. Foi uma das fundadoras do Movimento ODS SC em 2009. Possui especialização em Direitos Humanos, Responsabilidade Social e Cidadania Global.