O que a Agenda 2030 espera de cada pessoa e de cada organização?

, Carine Bergmann 9 de julho de 2026
 O que a Agenda 2030 espera de cada pessoa e de cada organização?


Estamos fazendo a pergunta certa quando pensamos em nossa contribuição para os ODS? Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável são para todos. Mas isso não significa que todos devam fazer as mesmas coisas. Um dos equívocos mais comuns é acreditar que contribuir com a Agenda 2030 significa tentar atuar em todos os ODS ou escolher apenas um para chamar de seu. É sobre essa mudança de perspectiva que vamos refletir neste artigo.

Por Regina May | ⏱️ Tempo de leitura: 9 minutos


O que vamos ver nesse artigo?

  1. Dois equívocos comuns na forma de compreender os ODS
  2. A transformação começa quando reconhecemos nossas capacidades
  3. O impacto coletivo nasce da conexão entre diferentes capacidades.
  4. Antes de perguntar o que fazer, precisamos fazer outra pergunta.
  5. A rede que conecta essas capacidades.

Introdução

Ao longo desta série, vimos que a Agenda 2030 foi construída para toda a humanidade a partir de um amplo processo participativo. No artigo anterior, reforçamos que “ninguém é sustentável sozinho” e que o alcance dessas transformações globais depende do poder das redes, das parcerias e da atuação conjunta. Essa visão está expressa no próprio documento Transformando o Nosso Mundo: A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável.

Ao declarar que a Agenda é para todos, as Nações Unidas deixam claro que o desenvolvimento sustentável exige a mobilização articulada de diferentes atores: governos municipais, o setor privado, organizações da sociedade civil, instituições de ensino e acadêmicas, comunidades locais, conselhos profissionais e cidadãos (ONU, 2015, §§ 39, 47 e 52).

Isso quer dizer que ela depende da atuação articulada de diferentes atores, cada um contribuindo a partir de suas capacidades, responsabilidades e possibilidades de atuação. Essa diversidade não enfraquece a Agenda; é justamente o que torna possível enfrentar problemas complexos de maneira integrada.

Essa talvez seja uma das ideias mais importantes e, ao mesmo tempo, uma das mais mal compreendidas da Agenda 2030. Afinal, se todos são corresponsáveis pelo desenvolvimento sustentável, isso significa que todos devem atuar da mesma forma e assumir as mesmas responsabilidades para todos os ODS, ao mesmo tempo?

Vamos ver que não.

1. Dois equívocos comuns na forma de compreender os ODS

À medida que a Agenda 2030 passou a fazer parte do cotidiano de muitas organizações e pessoas, duas interpretações se tornaram bastante frequentes.

A primeira é acreditar que contribuir com os ODS significa realizar iniciativas relacionadas a todos os Objetivos. A segunda é exatamente o oposto: escolher apenas um ou dois ODS como se toda a contribuição pudesse ser resumida a eles.

Embora pareçam diferentes, essas duas interpretações têm a mesma origem. Ambas enxergam os ODS de forma fragmentada.

No primeiro caso, perde-se o foco ao tentar fazer um pouco de tudo. No segundo, perde-se a compreensão de que os Objetivos são transversais e que uma mesma transformação pode contribuir para diversas metas e ODS ao mesmo tempo.

Como vimos no artigo sobre a visão sistêmica, os ODS foram concebidos para funcionar como um sistema integrado. Eles não são uma coleção de temas independentes nem uma lista de opções entre as quais cada organização, ou pessoa, escolhe apenas aquelas com as quais mais se identifica.

Por isso, o ponto de partida não deveria ser a pergunta: “Em quais ODS atuamos?”

Essa é uma pergunta importante, mas vem depois.

Antes dela existe outra:

“Qual transformação somos capazes de produzir a partir daquilo que fazemos melhor?”

É essa resposta que permitirá compreender, de forma consistente, com quais metas e Objetivos essa contribuição se relaciona.

Os ODS não são o ponto de partida da contribuição; são a referência que orienta, conecta e permite compreender a contribuição que cada pessoa ou organização é capaz de gerar.

2. A transformação começa quando reconhecemos nossas capacidades

Entre as dúvidas mais frequentes de quem se torna signatário do Movimento ODS SC estão perguntas como:


“O que eu posso fazer para contribuir com os ODS?”


“Nossa organização ainda não faz nada relacionado aos ODS. Por onde começamos?”

Essas perguntas são naturais. Mas elas revelam uma compreensão ainda inicial da Agenda 2030.

Muitas vezes, imaginamos que contribuir com os ODS significa desenvolver novos projetos ou novas iniciativas, ou incorporar atividades que nunca fizeram parte da atuação da organização ou da vida das pessoas.

A boa notícia é que, na maioria das vezes, contribuir com a Agenda 2030 não começa com a criação de um novo projeto. Começa com um novo olhar sobre as capacidades que pessoas e organizações já possuem, sobre ações que já realizam.

Todos nós (pessoas físicas e pessoas jurídicas) existimos por uma razão. Ao longo de nossa trajetória, desenvolvemos competências, adquirimos conhecimentos, acumulamos aprendizados, estabelecemos relações e conquistamos a capacidade de influenciar outras pessoas, instituições, territórios e decisões.

É justamente nessa finalidade que reside o maior potencial de contribuição para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

Uma empresa pode gerar impacto por meio daquilo que produz, da forma como gere pessoas, inova e influencia sua cadeia de valor. Uma instituição de ensino contribui pela formação de cidadãos, pela pesquisa e pela extensão. Organizações da sociedade civil conhecem profundamente os desafios dos territórios onde atuam. Organizações de classe mobilizam setores inteiros da economia e das profissões. O poder público transforma realidades por meio das políticas públicas. E cada cidadão influencia o desenvolvimento sustentável pelas escolhas que faz, pelos espaços que ocupa, pelas relações que constrói e pela participação cidadã.


É justamente nesse conjunto de capacidades que reside o maior potencial de contribuição para os ODS.

A Agenda 2030 não convida pessoas e organizações a fazerem um pouco de tudo.

Ela convida cada uma a reconhecer aquilo que faz de melhor e colocar essas capacidades a serviço das transformações que o mundo mais precisa.


3. O impacto coletivo nasce da conexão entre diferentes capacidades

Já vimos que os grandes desafios do desenvolvimento sustentável são complexos demais para serem enfrentados por uma única perspectiva, um único setor. Por isso, sua força não está em fazer com que todos atuem da mesma forma, mas em conectar capacidades diferentes em torno de um mesmo propósito.

O cientista social americano Scott E. Page (2007) demonstra, por meio de seus estudos sobre inteligência coletiva, que grupos com diversidade cognitiva encontram soluções muito mais eficazes para problemas complexos do que equipes formadas apenas pelos indivíduos considerados mais talentosos. Isso acontece porque a diversidade reúne diferentes formas de pensar e múltiplos modelos mentais. Embora a pesquisa de Page não trate especificamente dos ODS, ela reforça um princípio estrutural da Agenda 2030: desafios complexos exigem respostas construídas a partir da pluralidade de capacidades.

Talvez esse seja um dos maiores ensinamentos da Agenda 2030: não precisamos desenvolver todas as competências para contribuir com o desenvolvimento sustentável. Precisamos reconhecer nossas capacidades, valorizá-las e conectá-las às capacidades de outras pessoas e organizações.

É da conexão entre capacidades diferentes que nasce o impacto coletivo.


4. Antes de perguntar o que fazer, precisamos fazer outra pergunta.

Desde que a Agenda 2030 entrou em vigor, em janeiro de 2016, uma pergunta passou a fazer parte da rotina de muitas pessoas e organizações: “O que posso fazer pelos ODS?”

Ela continua sendo importante, mas talvez não seja a primeira. Antes de decidir quais projetos criar, quais campanhas desenvolver ou quais ODS priorizar, existe uma reflexão que pode transformar completamente nossa forma de compreender a Agenda.

Em vez de perguntar apenas “o que fazer?”, talvez devêssemos perguntar: “Qual transformação somos realmente capaz de produzir?”


Quando essa resposta se torna clara, os ODS deixam de ser uma lista de iniciativas e passam a funcionar como uma bússola capaz de orientar, fortalecer e ampliar aquilo que fazemos de melhor.


5. A rede que conecta essas capacidades

Se cada pessoa e cada organização possuem capacidades diferentes, alguém precisa criar pontes entre elas. Esse é um dos papéis mais importantes do Movimento ODS Santa Catarina.

Ao reunir empresas, organizações da sociedade civil, instituições de ensino, organizações de classe, poderes públicos e pessoas físicas em uma mesma rede, o Movimento fortalece conexões capazes de ampliar o impacto coletivo.

Mais do que incentivar novas iniciativas, o Movimento estimula que cada signatário reconheça sua capacidade de contribuição e encontre oportunidades para atuar de forma articulada com os demais.


Quando diferentes competências se conectam, o desenvolvimento sustentável deixa de depender de esforços isolados e passa a ser construído como uma verdadeira rede de transformação.

Conclusão

Nos artigos publicados até aqui, vimos que os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável formam um sistema integrado, que a coerência entre discurso e prática fortalece a credibilidade das ações e que a transformação se torna mais potente quando diferentes capacidades se conectam em torno de um propósito comum.

Neste artigo, avançamos mais um passo nessa reflexão: antes de perguntar “o que precisamos fazer pelos ODS”, somos convidados a “reconhecer qual transformação somos realmente capazes de produzir”.

A resposta dificilmente estará em fazer um pouco de tudo ou em escolher apenas um Objetivo de Desenvolvimento Sustentável para chamar de seu. Ela nasce quando reconhecemos nossas capacidades, compreendemos nosso propósito e colocamos aquilo que fazemos de melhor a serviço das transformações que a Agenda 2030 propõe.

Talvez a maior contribuição deste artigo não seja responder uma pergunta.

Seja propor uma nova.

Qual parte de mim, ou da minha organização, precisa ser colocada a serviço da transformação?

Essa talvez seja uma das reflexões mais importantes para quem deseja contribuir de forma genuína com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.


Porque a Agenda 2030 não precisa de mais ações dispersas. Precisa de pessoas e organizações que compreendam profundamente qual transformação são capazes de produzir a partir daquilo que fazem de melhor.

Referências

  • Organização das Nações Unidas (ONU). Transformando o Nosso Mundo: A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. Especialmente os parágrafos 35, 39, 41, 45, 46 e 52, que tratam da implementação da Agenda, das parcerias, da participação dos diferentes atores e da corresponsabilidade. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/sdgs
  • Organização das Nações Unidas (ONU). Transformando o Nosso Mundo: A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável (texto integral). Disponível em: https://sdgs.un.org/2030agenda
  • PAGE, Scott E. The Difference: How the Power of Diversity Creates Better Groups, Firms, Schools, and Societies. Princeton: Princeton University Press, 2007.
  • United Nations Department of Economic and Social Affairs (UN DESA). Stakeholder Engagement and the 2030 Agenda: A Practical Guide. Disponível em: https://sdgs.un.org/publications/stakeholder-engagement-and-2030-agenda-practical-guide-33141


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Regina May é Assessora Executiva do Movimento ODS Santa Catarina, com atuação focada em desenvolvimento comunitário e sustentável desde 2001. Foi uma das fundadoras do Movimento ODS SC em 2009. Possui especialização em Direitos Humanos, Responsabilidade Social e Cidadania Global.