É possível gerar impacto sozinho? Em desafios simples, talvez. Mas quando o assunto envolve pobreza, desigualdade, mudanças climáticas, educação ou desenvolvimento sustentável, a resposta é diferente. Os desafios enfrentados pela Agenda 2030 são complexos, interdependentes e exigem articulação entre diferentes atores. Neste artigo, vamos entender por que a colaboração não é apenas desejável nos ODS, ela é condição para que a transformação aconteça.
Por Regina May | Tempo de leitura: 12 minutos
O que você vai encontrar neste artigo
- A Agenda 2030 nasceu da construção coletiva
- A ilusão da sustentabilidade isolada
- O Quinto “P” da sustentabilidade
- O papel de cada setor
- O conceito de Impacto Coletivo aplicado às parcerias estruturais
- O Movimento ODS Santa Catarina como o ponto de encontro dessa rede
Introdução
Ao observar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável é natural que cada organização ou pessoa identifique aqueles que mais se relacionam com sua realidade e sua forma de atuação. Uma empresa pode enxergar maior conexão com o ODS 9 (Indústria, Inovação e infraestrutura), uma instituição de ensino com o ODS 4 (Educação de qualidade), um órgão público com o ODS 11 (Cidades e Comunidades Sustentáveis) e uma pessoa física com o ODS 12 (Consumo e Produção Responsável).
Essa identificação é importante porque ajuda a transformar uma agenda global em ações concretas. No entanto, ela também pode levar à falsa impressão de que cada ator é responsável apenas por uma parte da Agenda 2030.
Ao longo desta trilha de Letramento ODS, vimos que os ODS são interdependentes, que precisam fazer sentido nos territórios, que dependem de indicadores para demonstrar transformação e que exigem coerência entre discurso e prática. Existe, porém, outro aspecto fundamental: nenhum ODS avança de forma isolada e nenhuma organização ou pessoa é capaz de promover, sozinha, as mudanças que a Agenda 2030 propõe.
O desenvolvimento sustentável não acontece dentro dos limites de uma instituição, de um projeto ou de uma residência. Os desafios que os ODS buscam enfrentar são compartilhados e suas soluções também precisam ser. Por isso, a Agenda 2030 deve ser compreendida como uma rede de conexões, em que diferentes setores, organizações e cidadãos possuem responsabilidades complementares.
Se os artigos anteriores nos ajudaram a olhar para dentro compreendendo estratégias, práticas e coerência, este nos convida a olhar para fora e reconhecer que a transformação depende da capacidade de construir pontes, fortalecer parcerias e atuar de forma colaborativa. Afinal, alcançar os ODS não é uma jornada individual, mas um compromisso coletivo.
1. A Agenda 2030 nasceu da construção coletiva
A Agenda 2030 não surgiu de uma decisão isolada de governos ou organismos internacionais. Ela é resultado de décadas de debates globais sobre desenvolvimento, sustentabilidade e direitos humanos, construídos com ampla participação de diferentes setores da sociedade.
Desde sua origem, a Agenda 2030 foi construída a partir de processos participativos, consultas públicas, conferências internacionais e contribuições de diferentes segmentos da sociedade. Não foi uma agenda criada apenas por governos ou organismos internacionais.
| O Brasil teve papel de destaque no processo de construção da Agenda 2030. Além de sediar tanto as conferências Rio-92 e Rio+20, o país contribuiu ativamente para as negociações que resultaram no documento final aprovado na ONU em 2015, defendendo princípios como a erradicação da pobreza, a redução das desigualdades, a participação social e a integração entre as dimensões econômica, social e ambiental do desenvolvimento. |
Essa origem revela uma característica fundamental dos ODS: eles nasceram do reconhecimento de que os grandes desafios da humanidade são complexos, interdependentes e não podem ser resolvidos por um único ator ou setor.
Por isso, a Agenda 2030 adota uma lógica de corresponsabilidade, na qual diferentes atores possuem papéis complementares:
• governos formulam políticas públicas e criam condições para o desenvolvimento sustentável;
• empresas influenciam cadeias produtivas, inovação e padrões de consumo;
• organizações da sociedade civil atuam diretamente nos territórios e junto às populações mais vulneráveis;
• instituições de ensino produzem conhecimento, pesquisa e formação cidadã;
• organizações de classe mobilizam setores e fortalecem boas práticas;
• e cada cidadão contribui por meio de suas escolhas, atitudes e participação social.
A transformação proposta pelos ODS depende justamente da capacidade de articulação entre esses atores. Afinal, se os desafios são compartilhados, as soluções também precisam ser.
2. A ilusão da sustentabilidade isolada
Ao longo dos artigos anteriores, vimos que os ODS exigem visão sistêmica e coerência entre discurso e prática. Mas existe outro elemento indispensável: a capacidade de trabalhar em rede.
Durante muito tempo, acreditava-se (e infelizmente muitas organizações e cidadãos ainda acreditam) que bastava neutralizar as emissões de gases efeito estufa ou separar corretamente seus rejeitos, que estava com a conta da sustentabilidade paga, ou que só isso já estava contribuindo com o alcance dos ODS.
Está certo que muitas iniciativas geram resultados importantes, mas encontram limites quando atuam isoladamente. Essa visão restrita gerou o que autores como Wallner e Narodoslawsky denominaram de “Ilhas de Sustentabilidade” (Islands of Sustainability). Os autores cunharam o termo justamente para alertar que ações ecológicas isoladas perdem sua eficácia se a conectividade regional e sistêmica for ignorada. No cenário nacional, o sociólogo Marcel Bursztyn expande essa crítica ao apontar o risco de criarmos “ilhas de excelência” cercadas por oceanos de degradação social e ambiental. O erro reside em tratar a sustentabilidade como um compromisso individual, ignorando que os ODS operam sob uma lógica de indivisibilidade e transversalidade.
Por exemplo, a implementação efetiva da Agenda 2030 exige compreender que os ODS não avançam de forma isolada. O ODS 12 (Consumo e Produção Responsáveis) e o ODS 17 (Parcerias e Meios de Implementação) ilustram bem essa interdependência. A separação correta dos resíduos por uma pessoa, ou organização, é uma ação importante, mas, sozinha, não garante a transformação desejada. Para que essa prática gere impacto real, ela precisa estar conectada a todo um ecossistema de atores e soluções, envolvendo coleta seletiva, logística reversa, cooperativas de catadores, empresas recicladoras, poder público e consumidores conscientes. É essa articulação em rede entre diferentes agentes que transforma uma ação individual em uma contribuição efetiva para os ODS.
3. O Quinto “P” da sustentabilidade
A Agenda 2030 está estruturada sob cinco pilares fundamentais, conhecidos como os 5 Ps da sustentabilidade: Pessoas, Planeta, Prosperidade, Paz e Parcerias. É muito comum que os quatro primeiros recebam a maior atenção, afinal, eles representam os grandes problemas estruturais que desejamos resolver: queremos erradicar a pobreza (Pessoas), proteger os ecossistemas (Planeta), garantir vidas economicamente plenas (Prosperidade) e cultivar sociedades pacíficas e inclusivas (Paz) (ONU).
No entanto, o quinto “P” (Parcerias) ocupa um lugar único nessa engrenagem. Ele não é um fim em si mesmo, mas o meio universal de viabilização. Ele é traduzido diretamente no ODS 17 (Parcerias e Meios de Implementação).
Diferente dos demais, esse ODS não trata de um tema específico como saúde, educação ou clima. Seu papel é fortalecer as condições necessárias para que todos os demais ODS avancem.
O ODS 17 destaca:
- cooperação entre setores;
- fortalecimento institucional;
- compartilhamento de conhecimento;
- mobilização de recursos;
- articulação entre escalas locais e globais.
A atuação em rede é indispensável porque amplia a capacidade de gerar transformação frente a desafios que nenhum setor resolveria sozinho. Sem essa articulação, as iniciativas individuais tendem a esbarrar em limites de alcance e impacto. É por isso que o ODS 17 funciona como a força gravitacional que mantém os demais objetivos orbitando de forma coordenada.
Cooperar não é uma atitude puramente altruísta; é uma pré-condição técnica para a sobrevivência de qualquer estratégia socioambiental de longo prazo.
O sociólogo espanhol Manuel Castells, em sua obra A Sociedade em Rede, afirma que o poder e a capacidade de transformação na nossa era não residem mais em nós isolados, mas na construção de conexões. Trazer Castells para os ODS significa reconhecer que um indivíduo ou uma organização agindo em total isolamento é incapaz de alterar os fluxos sistêmicos que destroem o meio ambiente ou geram desigualdade social.
4. O papel de cada setor
Na prática, os ODS funcionam como um grande quebra-cabeça. Ninguém tem todas as peças sozinho. Para que as coisas mudem de verdade, cada setor precisa entender o que faz de melhor e, principalmente, aceitar que precisa da ajuda dos outros.
Para entender como essa engrenagem funciona, pense em uma troca: a força de um setor ajuda a cobrir a fraqueza do outro. Veja na tabela abaixo como todos nós (os diferentes tipos de signatários do Movimento ODS SC) estamos conectados:
| Quem é o ator? | O que ele traz de bom? (Sua Força) | Do que ele precisa dos outros? (Sua Necessidade) |
| Empresas Pública ou Privada | Dinheiro para investir rápido, produtos inovadores e agilidade para fazer as coisas acontecerem. | Leis claras do governo, apoio das comunidades e cidadãos que valorizem o consumo consciente. |
| Poder Público | Criação de leis, investimentos em grandes obras e serviços públicos para toda a população. | Projetos eficientes das empresas, dados das universidades e cidadãos que respeitem as regras da cidade. |
| Instituições de Ensino | Pesquisas científicas, dados confiáveis sobre a realidade e estudo de novas tecnologias. | Recursos financeiros públicos e privados para pesquisas e espaço no mercado para testar suas ideias na prática. |
| Organizações de Classe | União de trabalhadores ou empresas de um mesmo setor, força política e capacidade de mobilizar categorias inteiras. | Apoio do governo para boas leis e parcerias com universidades para atualizar o conhecimento dos profissionais. |
| Organizações da Sociedade Civil | Contato direto com as comunidades mais necessitadas, agilidade social e defesa dos direitos humanos. | Doações de empresas, menos burocracia do governo e pessoas dispostas a trabalhar como voluntárias. |
| Pessoa Física | Poder de escolher o que compra, poder do voto e ações no dia a dia. | Serviços públicos de qualidade, produtos sustentáveis mais baratos nas lojas e projetos comunitários para participar. |
A sustentabilidade é uma rede de interdependência onde a colaboração transforma necessidades em soluções conjuntas.
5. O conceito de Impacto Coletivo aplicado às parcerias estruturais
Para que as metas da Agenda 2030 se concretizem, as parcerias multissetoriais precisam adotar o modelo de Impacto Coletivo, conceito desenvolvido pelos pesquisadores norte-americanos John Kania e Mark Kramer em seus estudos publicados na Harvard Social Innovation Review. Kania e Kramer defendem que grandes transformações sociais não nascem de iniciativas isoladas que competem entre si, mas sim de um esforço coordenado, coletivo e colaborativo.
Vamos a um exemplo prático: Imagine um município enfrentando altos índices de evasão escolar. Uma solução isolada poderia gerar um projeto específico dentro da escola. Uma abordagem colaborativa poderia integrar escolas, assistência social, famílias, empresas locais, universidades e organizações comunitárias.
Nesse caso, além da aprendizagem, podem surgir impactos em renda, empregabilidade, inclusão social e redução das desigualdades.
A colaboração amplia alcance, legitimidade e potencial de transformação.
6. O Movimento ODS SC como o ponto de encontro dessa rede
É exatamente no preenchimento dessas condições de Impacto Coletivo que reside a razão de ser do Movimento ODS Santa Catarina. O Movimento funciona como a infraestrutura de suporte que unifica esses diferentes setores.
Nossa atuação vai além da disseminação de conhecimento e realização de eventos. O Movimento aproxima setores, estimula parcerias e cria espaços onde diferentes atores podem compartilhar experiências e construir soluções em conjunto.
Mais do que reunir signatários, a proposta é fortalecer uma rede capaz de acelerar a Agenda 2030 no território catarinense.
Conclusão
A Agenda 2030 é um manifesto sobre a nossa interdependência global. Ela nos lembra, a cada meta estabelecida, que nenhum ecossistema se salva se o bioma ao lado for destruído; nenhuma empresa prospera de verdade em uma sociedade que colapsa; e nenhum cidadão desfruta de qualidade de vida real isolado em uma bolha de consumo individual.
Superar a ilusão da sustentabilidade isolada é o teste de maturidade ética das nossas instituições e das nossas vidas privadas. Quando entendemos que ninguém é sustentável sozinho, as parcerias deixam de ser um adendo burocrático e passam a ser a nossa maior vantagem estratégica para transformar Santa Catarina em um território de futuro viável.
Lembre-se sempre: Ninguém é sustentável sozinho! Em grupo, transformamos o mundo!
REFERÊNCIAS
WALLNER, A.; NARODOSLAWSKY, M.; MOSER, A. Islands of sustainability: a concept for regional development. Mathematical and Computer Modelling, v. 23, n. 11-12, p. 1763-1778, 1996. Link
BURSZTYN, Marcel (Org.). Ciência, ética e sustentabilidade: desafios ao novo século. 2. ed. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2001.
CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede (A Era da Informação: Economia, Sociedade e Cultura, Volume 3). São Paulo: Paz e Terra, 1999.
KANIA, John; KRAMER, Mark. Collective Impact. Stanford Social Innovation Review, 2011. Link
ONU Brasil
Transformando o nosso mundo: A agenda 2030 para o desenvolvimento sustentável.
Acompanhe nossa trilha de conhecimento mensal sobre os ODS. No próximo artigo, vamos entender que mesmo que para construir um futuro mais sustentável é uma tarefa coletiva, cada ator tem um papel único e indispensável nessa jornada.
Financiar o Movimento ODS SC é exercer uma parceria sólida que contribui para as metas 17.16 e 17.17. Se sua organização acredita no poder da transformação coletiva, invista no Movimento ODS SC! Saiba como clicando aqui.
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Regina May é Assessora Executiva do Movimento ODS Santa Catarina, com atuação focada em desenvolvimento comunitário e sustentável desde 2001. Foi uma das fundadoras do Movimento ODS SC em 2009. Possui especialização em Direitos Humanos, Responsabilidade Social e Cidadania Global.
