Um catarinense está entre os 60 ganhadores de um concurso de redação das Nações Unidas sobre cidadania e multilinguismo. Tom Claudino dos Santos – natural de Ibirama e atualmente morador de Balneário Camboriú visitou a Assembleia Geral da ONU no final de julho para participar do Fórum Global da Juventude.
O jovem de 22 conversou conosco e nos contou um pouco sobre a sua experiência. Confira a entrevista:
MNPSC– A premiação — denominada “Muitas Línguas, Um Mundo” — recebeu inscrições de mais de 3,6 mil estudantes universitários de 130 países e 2,5 mil centros de ensino. Como foi para você ser um dos premiados entre tantas pessoas?
TOM – É antes de tudo um privilégio. Eu me senti abençoado por estar lá, porque conheci pessoas maravilhosas, de 36 países. Eu sempre digo que o melhor do programa não é o programa em si, mas as pessoas. Tanto as pessoas que organizaram o programa por parte da TLC e da Unit Academic Impact, que organizou todo o programa, eles eram muito organizados, nos deram todo o apoio. E os estudantes. A gente estava no meio de todo mundo, pensando num futuro melhor. É demais. É difícil até descrever porque todo dia é uma experiência nova. Cada pessoa trazia um input de seu país, suas próprias experiências academicas e culturais. Então, todos os dias aprendíamos muito, não só relacionado a agenda 2030, mas com a convivência, principalmente no sentido de ser mais tolerante, mais aberto à novas culturas. Por exemplo, o meu grupo tinha gente do Líbano, do Iraque, do Vietnã, da Tanzania, então era um caldo cultural todos os dias.

MNPSC- Como eram divididos os grupos de redação e como foi a seleção?
TOM – A redação era dividida nas seis linguas oficiais da ONU, eram 10 pessoas para cada lingua. Nosso grupo, de lingua inglesa, tinha 10 pessoas. Só no nosso concorreram 1500 redações, nos outros grupos por exemplo, como o Árabe, foram 30. Então foi muito emocionante ter chegado lá.
MNPSC- E quais assuntos eram tratados na redação e como foram os trabalhos?
TOM: As redações tratavam da realidade local. Tentamos falar um pouco do nosso país e trazer uma solução. Porque os problemas estão aí e todo mundo vê. Agora, identificar as possíveis soluções para eles, foi o que marcou todas as redações que ganharam. Foi uma semana muito intensa. Todo dia a gente trabalhava e estudava desde cedo até à noite, e foi um aprendizado até difícil descrever em palavras, foi uma experiência única.
Nos primeiros dias, conhecemos as pessoas, entendemos como funcionava o programa. Após isso, ficamos dois dias e meio, trabalhando o nosso discurso, discutindo os Objetivos e as metas da agenda 2030 e no ultimo dia a gente apresentou lá na ONU, na Assembleia Geral, e depois fomos conhecer a ONU, o Central Park e fazer um pouco de turismo.
MNPSC – Como você se enxerga depois dessa experiência?
TOM: Em termos academicos, foi a minha primeira experiência de ir para outra universidade e foi muito rico nesse sentido. Em termos profissionais também, porque estar lá na ONU e ver que as pessoas que ocupam essas funções são pessoas como a gente, não existe algo de sobrenatural em uma pessoa que ocupa uma vaga em uma organização internacional. Ela estudou, tem uma trajetória acadêmica e conseguiu. Eu acho que abriu os meus olhos nesse sentido, de que as vagas são dificeis, é competitivo, mas é ter um sonho e correr atrás porque é algo factível. Eu penso, poxa eu tenho 22 anos, deveria estar procurando um trabalho, existe sempre uma pressão da família, mas eu optei exatamente pela via academica porque eu acho que hoje em dia a opção de não estudar limita muito. E querendo ou não, eu acho que essa experiencia me mostra que as pessoas que escolhem estudar mais e seguir carreira academica tem oportunidades de ir pra fora, conhecer novas culturas, ter experiências muito ricas.
MNPSC – Sobre o que tratou a sua redação?
TOM: A minha redação tratou do ensino de línguas no Brasil, e como eu encarava o aspecto das línguas enquanto uma ferramenta para garantir a tolerância entre os povos. Eu trouxe uma experiência minha da China, pois já tive a oportunidade de ir para lá, e eu lembro como falar inglês me abriu portas. Garantiu que eu fizesse as coisas mais básicas, desde pedir uma água até conseguir entender os meus colegas. Então, o aprendizado de línguas é uma ferramenta fundamental para tirar um pouco dessa capa dos conceitos sociais que a gente tem em relação a outras culturas, do medo, da desconfiança em relação ao que é diferente.
Ela consegue criar essa ponte entre os povos.E tratando um pouco mais da realidade que eu trouxe do aprendizado de línguas no Brasil, muitas vezes o Inglês no Brasil não é utilizado como uma ferramenta de comunicação. Muitas vezes, o ensino de inglês nas escolas públicas é mais voltado para o vestibular. Não tem o sentido de ensinar as pessoas sobre a cultura de outros lugares, sobre as possibilidades que aprender uma nova língua pode trazer. O que acaba fazendo que que as pessoas tenham que recorrer ao ensino privado do inglês. Mas só que quem pode recorrer ao ensino privado são normalmente pessoas de classe média, classe média alta, o que faz com que as pessoas que tenham acesso à línguas tenham oportunidades melhores mais na frente.
Então, acaba sendo mais uma ferramenta para a manutenção do status de classe do que exatamente como algo que empodera as pessoas a perseguir algo melhor. A minha solução é tentar implantar uma política de aprendizado de línguas que de fato prezasse sobre a horizontalidade, para um ensino mais holístico da língua, no sentido que ela consiga embarcar em conceitos que não só a gramática, exatamente entendida como para se comunicar com as outras pessoas. Eu também respeito as línguas nativas, pois por exemplo, muitas línguas indígenas acabam sendo oprimidas pelo ensino obrigatório de outras línguas e isso na Europa é uma realidade muito latente.
O que se utiliza hoje é a língua como exclusão no sentido de falar. Ou você aprende a língua para o país que você migra, ou você está fora. Isso ocorre um pouco aqui com os haitianos. A gente vê que a limitação da língua é muito grande. Para garantir o acesso dos imigrantes ao mercado de trabalho, e a uma convivência social ampla, ele precisa dominar a língua. Nesse sentido, temos que entender a língua, não como elemento para diferenciar do outro, mas trazer o outro para o convívio social no qual ele realmente esteja inserido de verdade.
E por fim, na minha redação também tratei sobre um aspecto mais genérico que é a compreensão do outro. Hoje, mundialmente a gente vive uma onda de conservadorismo, de medo que acaba dando origem a movimentos políticos que prezam na sua essência pela exclusão, pelo medo, pelo populismo e isso é muito perigoso. Então, acho que parte do remédio é promover a compreensão do outro. Então acho que é isso que a gente está perdendo um pouco e é tão necessário. Entender o outro sem medo, a partir de bases mais iguais, mais tolerantes, basicamente foi isso que eu expressei na minha redação.
MNPSC – Teve alguma história dos seus colegas que te marcou?
TOM: Definitivamente (risos). No meu grupo de Inglês, de uma mulher chamada Vênus. Ela era do Iraque, e ela era uma arquiteta. Ela está fazendo agora o PHD nos EUA e ela estava desenvolvendo uma teoria chamada “Arquitetura da Paz”. O ponto central da teoria é pensar na arquitetura que preze pelo convívio entre os inimigos. Ou que crie espaços em ambientes de guerra que promovam o diálogo entre as partes que estão em conflito. É incrível pensar que alguém do Iraque conseguiu sair de um contexto de guerra, de violência, de opressão, migrar para os EUA, fazer uma carreira de sucesso, ela já tem vários prêmios, aos 35 anos, e desenvolveu uma teoria que faz a diferença. Pensar em sua esfera de ação, onde ela tem capacidade de atuar e criar uma teoria que o de fato o nome já diz tudo. Isso me marcou muito, porque ela contando as histórias de guerra do Iraque, como ela interpretava todo o trajeto dela até ela chegar ali, foi incrível. A humildade e a percepção de que a gente tem que de fato atuar dentro das nossas esferas para criar um mundo melhor. E claramente ela fazia isso e tenho certeza que no futuro vou ouvir o nome dela. Eu tenho certeza que ela tem um futuro brilhante.
Uma outra história que me marcou, foi de uma outra mulher do grupo, mas que não conseguiu vir. Ela é uma refugiada de Huanda, fugiu para o Kênia quando ela era nova devido ao massacre em Huanda, e viveu a vida dela inteira em um campo de refugiados, e estudou para se tornar enfermeira. Ela fez a redação, passou, só que como ela não tinha o documento nacional do Kenia, ela não conseguiu o visto americano para entrar. Mas a história dela era linda, de alguém que viveu a vida inteira em um campo de refugiados, estudou enfermagem, atuava no campo junto a ONU no Kenia, e ela contando como as linguas, como o aprendizado de ingles possibilitou a ela a sair de uma realidade extremamente dificil, onde a maioria das pessoas não vislumbram um futuro fora daquilo, pra de fato ter uma atuação junto a OIs, a ONU, enfim, é uma história muito bonita e é uma pena não ter conhecido ela. Mas esses dois casos foram os que mais marcaram.
MNPSC – E como nossos problemas ficam menores olhando por esse angulo…
TOM: É, eu sou super dramático falando dos problemas do Brasil, eu acho que o mundo está acabando aqui (risos). Mas por exemplo, conversando com as pessoas lá, teve um menino da Tanzânia, ele foi um que 60% da população da cidade que ele mora na Tanzânia vive em 6% do espaço, em termos geográficos, em uma favela, em condições deploráveis. Conversei com uma menina do Líbano, onde de 5 milhões de habitantes, 2 milhões são refugiados. Está tendo imigração aqui, e sabe, de uma intolerância, de uma violência contra imigrantes, que utilizam argumentos como, eles vêm roubar nossas vagas de trabalho, vêm utilizar nosso sistema público que já está sobrecarregado, e a porcentagem de imigração é minúscula se comparado com outros países.
Por exemplo, quase 40% da população deles é de imigrantes, imagina em termos populacionais, econômicos, sociais, quantos desafios isso não gera. E a gente aqui com 40 mil imigrantes, é uma lição para gente ver que os nossos problemas são realmente numa escala muito menor que o deles. E assim, quando eu fui pra lá eu pensei que poderiam haver limitações sobre o que podia ou não ser dito, e pelo contrário havia total liberdade. E outras pessoas não. Eu podia falar qualquer coisa e voltaria para o Brasil e não teria problema nenhum, em teoria. Mas as pessoas lá elas tinham que medir as palavras milimetricamente, porque quando elas voltassem elas poderiam ter uma chance real de uma retaliação política ao discurso delas. Então em termos de liberdade de expressão, sobre aquilo que a gente pode ou não compartilhar, a gente vê que vive em um país que é muito progressista e alguns sentidos, outros não, mas no geral sim.
MNPSC – Os ganhadores puderam participar do Fórum Global da Juventude, na sede da ONU, em Nova York, onde debateram a importância do multilinguismo para o cumprimento da nova Agenda 2030 das Nações Unidas? Como foi esse debate e que reflexões foram importantes a partir desse encontro?
TOM: Cada grupo foi designado com um objetivo da agenda. O nosso foi o ODS 11, “Tornar cidades seguras, inclusivas, resilientes e sustentáveis”. Então nós tínhamos que elaborar o nosso discurso em torno desse objetivo. Cada pessoa mais ou menos trabalhou dentro. Eu tentei trazer a questão da especulação imobiliária no Brasil, que eu acho que tem tudo haver com planejamento urbano, um vietnamita trouxe a questão da mobilidade urbana, outro trouxe da imigração, no grupo de Inglês todos trabalharam de uma maneira dentro da esfera geral das cidades. As principais reflexões foram que a gente precisa garantir a tolerância. Na questão da imigração isso é fundamental. Tornar a cidade num espaço mais horizontal e pensar no planejamento urbano não simplesmente enquanto uma fonte de lucro privado mas enquanto uma garantia dos direitos humanos. Pensar as cidades para as pessoas. Hoje a gente enfrenta um problema que ocorre em todas as cidades, mesmo na Alemanha que a gente tem como um referencial de igualdade, os guetos lá e boa parte de como a imigração foi tratada, os imigrantes foram condicionados a morar em regiões afastadas, explica o fracasso deles em termos de inclusão social.
E como os temas foram diferentes, por mais que tivesse esse guarda-chuva das cidades, a gente não chegou em conclusões gerais. Mas foi pensar as cidades para as pessoas, com um espaço que deve ser compartilhado e tentar nesse sentido acabar com os espaços que limitam as pessoas de frequentar e participar da convivência urbana.
MNPSC – Qual a sua perspectiva de futuro a partir dessa experiência?
TOM: Agora meu objetivo é ir para a França, estudar bastante nesses 10 meses lá, é uma oportunidade muito legal, fiquei muito feliz de ter conseguido essa oportunidade logo depois de Nova York porque eu acho que é importante ter uma visão mais distante dos problemas que a gente está vivendo. Eu vou estudar lá macroeconomia e desenvolvimento, e essa é uma das vias que eu escolhi, e penso que assim posso ajudar a melhorar o Brasil no futuro. Entre muitas opções, eu escolhi essa porque acredito estar mais voltada para a minha área. Mas minha perspectiva agora é me aprofundar no sistema para quem sabe voltar para o Brasil daqui há um ano e continuar no mestrado e de alguma maneira pensar em políticas públicas e pensar o país de uma maneira mais inclusiva, mais sustentável, mais tolerante e menos individualista. Ainda não sei precisamente onde, mas eu gostaria muito de poder trabalhar em órgão público, como a FIESC, ou Governo do Estado, em algum órgão público onde eu pudesse agregar tudo isso que eu aprendi nessa trajetória acadêmica, pra formar um Brasil um pouco menos desigual, quem sabe ajudando a promover a agenda 2030.
MNPSC – Como você enxerga os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e como pretende se engajar nessa agenda?
TOM: Eu nunca tinha parado para ler a agenda de fato, o que mais me surpreendeu é que os objetivos têm uma pauta muito progressista. Muitas vezes quando a gente estuda organizações internacionais, o que a gente acaba estudando mais são os bancos de desenvolvimento, o banco mundial, o FMI, e os novos bancos que surgem, e a gente ve que boa parte da agenda deles é definida por objetivos e termos muito ligados a uma ideologia neoliberal, que ainda persiste nessas agendas. No entanto na ONU a gente vê que existem muitos objetivos e metas, e o próprio conteúdo da agenda, profundamente progressistas.
Por exemplo, já admitindo em alguns aspectos que só o mercado privado não consegue prover alguns serviços, que sim, têm que partir de um envolvimento maior da sociedade civil e do governo. Nesse sentido, eu fiquei muito surpreso positivamente de que hoje os objetivos já embarcam uma gama maior de atores. Sempre embarcaram, mas agora acho que de uma maneira mais comprometida da sociedade civil. Além disso, acho que a gente está chegando num ponto da história da humanidade de que talvez a gente não tenha mais escolha no sentido de ou pensar no futuro ou não. A gente tem que pensar, porque não só em termos de sustentabilidade, de danos ambientais – a gente está chegando no limite daquilo que o planeta pode fornecer – mas em termos de exclusão social, de pensar uma sociedade mais digna, mais inclusiva. O sistema econômico que a gente vive hoje não é mais compatível com a democracia em diversos aspectos.
Temos que encontrar maneiras de fazer com que as pessoas participem ativamente da vida política, das atividades comunitárias e que elas definam seus rumos tanto nas cidades onde elas moram, quanto nos estados e países. Na minha percepção a exclusão social hoje derivada da concentração de renda não garante mais com que o voto seja algo que garanta a representatividade na escolha dos governantes. Então, uma agenda que preze pela inclusão social, pela preservação do meio ambiente, pela inclusão dos excluídos, é algo fundamental para pensar um mundo sustentável. No meu futuro, independentemente da esfera de ação que eu tiver, se for na academia, se for no mercado privado, ou em alguma organização internacional, os princípios da agenda irão minha atuação. Não só por serem um ideal a ser perseguido, afinal são objetivos difíceis de serem atingidos.
Mas eu acho que cabe a nós construir as pontes para chegar lá. E se não houver uma integração de todos os atores (sociedade civil, empresas e governos) não vamos chegar lá. Meu objetivo é no futuro, no meu espaço de trabalho, tentar usar eles como um guia para aquilo que eu pretendo desenvolver. E pensar: – Para que todo esse meu conhecimento vai ser usado. Para quem? Na minha esfera de trabalho, no dia a dia, para que eu estou estudando isso? É uma ideologia inclusiva ou que vai excluir? Eu acho muito importante pensar nesse sentido, como eu vou atuar para implementar os objetivos no sentido mais amplo possível, tentar realmente criar uma sociedade no qual eles façam sentido. No qual não seja apenas mais um objetivo que está no papel. Seja algo que de fato eu consiga materializar.
