Mais do que relatar: como demonstrar nossa contribuição para os ODS

, , , Regina May 15 de outubro de 2026
 Mais do que relatar: como demonstrar nossa contribuição para os ODS

Será que relatar o que fazemos é suficiente para demonstrar nossa contribuição para os ODS? A Agenda 2030 nos convida à ação, mas também precisamos ser capazes de mostrar o que essa ação produz. É sobre isso que vamos refletir neste artigo.

Por Regina May | Tempo de leitura: 09 minutos

O que vamos ver neste artigo:

  • O que vamos ver no artigo?
  • O que estamos registrando?
  • Da ação ao resultado
  • A importância das evidências
  • Relatar com responsabilidade
  • Relatar para aprender

Introdução

Em 2025 finalizei uma especialização, para a qual desenvolvi uma pesquisa analisando relatórios de sustentabilidade de algumas empresas catarinenses, com o objetivo de entender como elas estavam reportando suas ações em relação aos ODS. Antes de continuar, quero deixar claro que este artigo não é direcionado somente às empresas. Você vai perceber que as dicas apresentadas aqui são para todos e todas: pessoas físicas e pessoas jurídicas. 

Não vou entrar em detalhes sobre a pesquisa porque ela ainda não está publicada, mas já adianto um spoiler que ajudou a despertar uma preocupação que considero importante para o nosso trabalho com os ODS: não basta dizer que uma ação contribui para a Agenda 2030. É preciso conseguir demonstrar essa contribuição. A própria ONU atualizou suas ferramentas de comunicação de progresso (CoP) para exigir métricas mais exatas e menos narrativas subjetivas das empresas signatárias.

Essa constatação também me fez perceber que falar sobre reportar deveria fazer parte do nosso percurso de Letramento ODS.

Nossa trilha está organizada em oito percursos: Conhecer, Contextualizar, Medir, Conectar, Alinhar, Colaborar, Agir e Reportar. Chegamos, portanto, a um ponto em que precisamos olhar para aquilo que fazemos e perguntar: como registrar, evidenciar e relatar nossa contribuição para os ODS de forma responsável?

1. O que estamos relatando?

Antes de pensar em como relatar, precisamos olhar para o que estamos realizando.Não é porque somos signatários do Movimento Nacional ODS, ou só assumimos um compromisso com a Agenda 2030, que tudo o que fazemos dever ser apresentado como uma ação que contribui diretamente para os ODS. 

Podemos realizar eventos, campanhas, encontros, palestras, mobilizações e diversas outras atividades importantes para disseminar conhecimento, sensibilizar pessoas e fortalecer redes. Essas iniciativas têm seu valor, e muito.

Mas, não é por isso que vamos carimbar com um ícone colorido e dizer que ela contribui com os ODS. Precisamos evidenciar o seu impacto naquilo que o ODS se propõe.

Já falamos sobre isso no artigo Coerência ODS: Por que o desenvolvimento sustentável exige alinhar o que defendemos e o que fazemos. E estudos globais de auditoria em sustentabilidade apontam que relatórios focados apenas em narrativas visuais, sem dados brutos de impacto, vêm perdendo credibilidade junto a investidores e parceiros comerciais.

Uma iniciativa para ser considerada uma contribuição com os ODS precisamos compreendê-la a partir da relação entre aquilo que ela produz e o problema que uma determinada meta busca enfrentar.

Por exemplo, realizar uma palestra sobre sustentabilidade não significa, por si só, produzir uma mudança relacionada a determinada meta. É preciso compreender o que a atividade alcançou, quais resultados produziu e que relação esses resultados estabelecem com a Agenda 2030.

Ou seja, só a realização da palestra sobre sustentabilidade não nos dá a certeza que contribuímos com a meta 4.7, que busca “garantir que todos os alunos adquiram conhecimentos e habilidades necessárias para promover o desenvolvimento sustentável”, sem ter garantias que esses alunos realmente adquiriram esse conhecimento e passaram a exercer um comportamento mais sustentável.

É justamente aqui que precisamos fazer uma distinção importante:

Não é a etiqueta de um ODS que torna uma ação uma contribuição. É a relação concreta entre a ação, o resultado que ela produz e o desafio que a meta procura enfrentar.

Essa compreensão muda a forma como registramos nossas iniciativas.

Em vez de perguntar apenas “qual ODS está relacionado a esta ação?”, precisamos começar a perguntar “o que esta ação produziu e como isso se relaciona com uma transformação prevista pela Agenda 2030?” (Atenção signatários: lembrem dessa pergunta quando forem preencher o relatório de Compromissos 2026).

2. Da ação ao resultado

Registrar que uma ação aconteceu é importante, mas não é suficiente.

Por exemplo, relatar que “Realizamos quatro oficinas”, é uma informação. Quando ampliamos a informação para “Realizamos quatro oficinas com a participação de 120 pessoas”, já falamos sobre o alcance das oficinas. Mas ainda podemos perguntar: 

  • O que aconteceu depois das oficinas?
  • Quantas pessoas ampliaram seus conhecimentos?
  • Houve mudança de comportamento?
  • Alguma prática foi modificada?
  • Algum processo foi aprimorado?
  • Uma decisão foi tomada?
  • Uma política foi criada?
  • Um problema foi reduzido?

Precisamos ter claro que nem toda transformação acontece imediatamente, e nem toda ação terá condições de demonstrar mudanças de longo prazo. Ainda assim, precisamos aprender a distinguir aquilo que fizemos dos resultados que alcançamos e reconhecer, com base em evidências, em que medida nossas ações contribuíram para essas mudanças. Essa diferença é fundamental para o relato dos ODS.

Uma iniciativa pode ter sido muito bem executada e ter alcançado muitas pessoas sem, necessariamente, produzir o impacto que imaginávamos.

Da mesma forma, uma ação pequena pode produzir uma mudança relevante em determinado contexto.

Por isso, mais importante do que o tamanho da ação é compreender qual resultado ela produziu e qual contribuição é possível demonstrar.

Esse olhar também nos ajuda a evitar outro problema: atribuir à nossa iniciativa uma transformação muito maior do que aquilo que ela efetivamente produziu.

Uma organização pode contribuir para uma transformação sem ser responsável por ela sozinha. Olha o ODS 17 aí, gente!

Isso é especialmente importante quando falamos de problemas complexos, como pobreza, desigualdade, mudanças climáticas, educação, saúde ou segurança alimentar. São desafios que envolvem múltiplos fatores e diferentes atores.

Nossa contribuição pode ser real e importante sem ser a única responsável pelo resultado. Lembram do artigo “Ninguém é sustentável sozinho: o poder das redes e parcerias na Agenda 2030”?

3. A importância das evidências

Se queremos demonstrar uma contribuição, precisamos conseguir sustentá-la. É aí que entram as evidências.

Uma evidência pode assumir diferentes formas. Pode ser um indicador, um dado quantitativo, um documento, uma pesquisa, uma avaliação, uma foto, um vídeo, uma comparação antes e depois, um depoimento ou outro elemento que ajude a demonstrar o resultado alcançado.

O mais importante é que exista coerência entre aquilo que afirmamos e aquilo que conseguimos demonstrar, por exemplo:

  • Se afirmamos que alcançamos 500 pessoas, precisamos ter um registro que sustente esse número.
  • Se afirmamos que houve mudança de comportamento, precisamos ter algum tipo de evidência que permita demonstrá-la.
  • Se afirmamos que uma iniciativa contribuiu para determinada meta dos ODS, precisamos explicar a relação entre a ação, o resultado alcançado e o desafio que a meta procura enfrentar.

Isso parece simples, mas muda completamente a qualidade de um relato.

Evidência não é enfeite de relatório. É o que nos permite sair da percepção de que uma ação “parece contribuir” para uma compreensão mais consistente de como e em que medida ela contribui.

Também é importante reconhecer os limites das nossas evidências. Nem sempre teremos condições de medir todos os impactos de uma iniciativa. E tudo bem.

O que precisamos evitar é apresentar como comprovado aquilo que ainda não conseguimos demonstrar.

4. Relatar com responsabilidade

Quando começamos a relacionar ações, resultados e evidências, percebemos que relatar a contribuição dessas ações para os ODS exige mais cuidado do que simplesmente utilizar seus símbolos e conceitos.

Os ícones dos ODS ajudam a identificar a Agenda 2030. Mas eles não substituem a explicação sobre a contribuição.

Da mesma forma, uma fotografia de uma ação, por mais bonita e significativa que seja, não demonstra sozinha seu impacto.

É nesse espaço que aparecem riscos como o greenwashing e o ODSwashing: quando a comunicação cria uma percepção de contribuição ou impacto maior do que aquilo que as práticas e evidências conseguem sustentar. 

Mas é importante fazer uma distinção.

Nem toda correlação inadequada significa necessariamente uma tentativa deliberada de enganar. Muitas vezes, existe falta de conhecimento sobre os ODS, dificuldade para estabelecer a relação com as metas ou desconhecimento sobre como registrar e demonstrar resultados. É justamente por isso que o letramento é tão importante.

Quanto mais compreendemos a Agenda 2030, mais capazes somos de reconhecer o que fazemos, o que realmente produzimos e o que podemos afirmar sobre nossa contribuição.

Em vez de dizer que uma iniciativa “contribui para todos os ODS”, podemos mostrar com clareza quais resultados produzimos, com quais metas eles se relacionam e quais evidências temos.

Em vez de transformar uma ação pontual em uma grande narrativa de impacto, podemos explicar seu papel dentro de uma trajetória maior.

Em vez de utilizar os ODS como etiquetas, podemos utilizá-los como referência para compreender e comunicar as transformações que estamos ajudando a construir.

Reportar com responsabilidade também significa reconhecer o que sabemos, o que conseguimos medir e aquilo que ainda precisamos compreender.

5. Reportar para aprender

Talvez seja esse o ponto mais importante de todos. Reportar não deveria servir apenas para mostrar aos outros aquilo que fizemos. Deveria também nos ajudar a olhar para nossa própria atuação.

Quando registramos uma ação, seus resultados e suas evidências, criamos uma memória que pode ser revisitada.

Podemos perceber:

  • O que funcionou.
  • O que não funcionou.
  • O que mudou.
  • O que permaneceu igual.
  • O que precisa ser aprimorado.
  • E o que podemos fazer de maneira diferente na próxima vez.

Por isso, vejo o Reportar não como o fim do processo, mas como parte de um ciclo.

Agir. Registrar. Evidenciar. Comunicar. Aprender. Reportar. E agir novamente.

Esse ciclo pode ser realizado por diferentes perfis de signatários, cada um a partir de sua realidade e de suas capacidades.

  • Uma pessoa pode registrar uma mobilização que realizou em sua comunidade.
  • Uma organização social pode acompanhar os resultados de um projeto.
  • Uma instituição de ensino pode documentar os resultados de uma iniciativa pedagógica.
  • Uma empresa pode acompanhar os efeitos de uma mudança em seus processos.
  • Um órgão público pode registrar a implementação e os resultados de uma política.

As formas de fazer são diferentes. Mas existe uma responsabilidade comum: ser capaz de demonstrar, com honestidade e clareza, aquilo que estamos afirmando sobre nossa contribuição para os ODS.

Conclusão

Ao longo deste primeiro ciclo do Letramento ODS, fomos ampliando nosso olhar sobre a Agenda 2030: começamos conhecendo os ODS, passamos pelo território, pelas metas e indicadores, pela visão sistêmica, pela coerência, pelas redes e parcerias, pelas capacidades e, finalmente, pela prática.

Chegamos agora a uma questão que atravessa todas as anteriores: como saber e mostrar que aquilo que fazemos está contribuindo para a transformação que a Agenda 2030 propõe?

A resposta não está em produzir relatos mais bonitos, utilizar mais ícones dos ODS ou apresentar listas cada vez maiores de iniciativas.

Está em construir relatos capazes de conectar ação, resultado, evidência e contribuição.

Reportar é dar visibilidade ao que fazemos, mas também é preservar a memória da nossa atuação, reconhecer nossos resultados, assumir os limites do que conseguimos demonstrar e aprender com a experiência.

Quando fazemos isso, a comunicação deixa de ser apenas uma forma de contar o que aconteceu e passa a ser também uma ferramenta de aprendizagem e transformação.

Agir transforma. Registrar torna a transformação visível. Evidenciar permite compreendê-la. E relatar com responsabilidade permite que ela seja reconhecida, acompanhada e aprendida.

Fontes

UNITED NATIONS GLOBAL COMPACT. Enhanced Communication on Progress (CoP) Policy. Acesse aqui 

PwC. PwC Global Investor Survey 2023: As macro worries ease, climate and social risks rise on investor agendas. Disponível aqui. 

NIEUWENKAMP, Roel. Ever heard of SDG washing? The urgency of SDG Due Diligence. [S. l.]: OECD Development Matters, 25 sept. 2017. Acesse aqui 

ONU. Transformando o nosso: a agenda 2030 para o desenvolvimento sustentável. Acesse aqui

OECD. Managing for Sustainable Development Results. Ler a publicação 

UNDP. Handbook on Planning, Monitoring and Evaluating for Development Results. 2009. Acesse o manual em pdf, em inglês, aqui.


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Regina May é Assessora Executiva do Movimento ODS Santa Catarina, com atuação focada em desenvolvimento comunitário e sustentável desde 2001. Foi uma das fundadoras do Movimento ODS SC em 2009. Possui especialização em Direitos Humanos, Responsabilidade Social e Cidadania Global.