Reconhecida nacionalmente por sua atuação à frente da Interpres, primeira Empresa de Tradução e Interpretação de Libras no estado de Santa Catarina, administrada por mulheres negras, criada em 2018, Jamile Lima constrói uma trajetória que une gestão, acessibilidade e impacto social real. Intérprete de Libras, pesquisadora e empreendedora, Jamile transforma experiências historicamente marginalizadas em estratégia, liderança e inovação. Premiada em 2025 no Prêmio Ailema Pucú e no Prêmio Powellister, sua atuação reafirma que acessibilidade não é exceção, mas princípio, e que ampliar acesso, presença e decisão é fundamental para a construção de uma sociedade mais justa, inclusiva e sustentável.
Nesta entrevista, Jamile Lima compartilha os significados desse reconhecimento, sua trajetória como liderança negra e neurodiversa, o papel pioneiro da Interpres no fortalecimento da acessibilidade em Santa Catarina e como práticas concretas de inclusão contribuem para o alcance dos ODS. A conversa também aborda empreendedorismo feminino, gestão com propósito e os desafios de transformar acessibilidade em prática cotidiana.
A seguir, a entrevista.
Movimento ODS SC – Você acaba de conquistar o 2º lugar no Prêmio Ailema Pucú. O que essa premiação representa para você e para a sua trajetória empreendedora?
Jamile Lima – Esse prêmio, concedido pelo Conselho Federal de Administração, é uma afirmação poderosa de que trajetórias como a minha, mulher negra, baiana, neurodiversa, com TDAH e dislexia, formada em Administração, vinda da Libras e da acessibilidade, também movem estruturas e constroem novos modelos de gestão.
Quando eu subo no palco, eu não subo sozinha. Eu subo com minha ancestralidade, com todas as mãos que me levantaram e com todas as pessoas que o mercado ainda insiste em não enxergar. Subo com a força de quem precisou criar caminhos onde não havia portas, com a potência de quem transforma diversidade em estratégia e diferença em inovação.
Esse prêmio representa aquilo que sempre defendi: nós não precisamos de concessão, nós precisamos de reconhecimento. E, quando ele vem, ele não valida só a minha caminhada, ele abre caminho para outras mulheres negras, para pessoas neurodiversas, para a comunidade surda e para todas as vozes que ainda são silenciadas.
Esse prêmio não celebra só uma trajetória individual. Ele celebra minha ancestralidade, minha comunidade e todas as pessoas negras, surdas e diversas que caminham comigo. É a prova de que, quando a gente abre caminho, a gente não abre só pra si. A gente abre para o coletivo, para a potência de todos que vieram antes e para aqueles que ainda virão.

Movimento ODS SC – Pela segunda vez, você representa Santa Catarina como a única premiada do estado em um reconhecimento nacional. Que significado isso tem para você?
Jamile Lima – Significa romper muros. Significa mostrar que a potência pode ser construída fora dos centros tradicionais de decisão e que essa potência tem rosto, voz e história. O rosto de uma mulher negra, baiana, neurodiversa, com TDAH e dislexia.
Ser a única premiada catarinense, pela segunda vez, em um reconhecimento nacional da Administração, é uma vitória que vai além de mim. É uma vitória coletiva, ancestral e política.
Quando eu chego, não chego sozinha. Chego com a força de todas as que vieram antes, com a luta das que vieram antes e com a responsabilidade de abrir caminho para as que ainda virão. Essa visibilidade tem um valor simbólico enorme, porque mostra que nossa presença importa, que nossa liderança existe e que nossos talentos não podem mais ser invisibilizados.
Mas também é um alerta. Quando apenas uma mulher negra aparece, é porque muitas ainda estão sendo barradas. É porque o mercado e as estruturas sociais continuam desenhados para nos excluir. É um lembrete de que representar Santa Catarina, representar a comunidade negra e representar a neurodiversidade no campo da Administração não é um ato de exceção. É um ato de resistência, de construção e de ruptura.
Para mim, ser vista como liderança afroempreendedora e neurodiversa significa assumir que nossas diferenças não são obstáculos, mas forças que nos permitem enxergar caminhos que muitos não veem, criar estratégias que transformam e provocar mudanças reais. Significa usar minha história e minhas experiências para abrir portas, derrubar muros e criar oportunidades para outras mulheres negras, para outras pessoas neurodiversas, para a comunidade surda e para todos que são historicamente marginalizados.
Essa premiação não é sobre mim. É sobre o que podemos construir juntas e juntos, sobre o legado que estamos deixando e sobre a necessidade urgente de transformar espaços que nunca foram pensados para nós. Significa que, quando uma de nós sobe, nenhuma sobe sozinha. E, quando uma de nós é reconhecida, todas avançam.
Movimento ODS SC – A Interpres tem uma história pioneira em Santa Catarina. Você pode contar um pouco sobre a empresa e sobre o seu papel no fortalecimento da acessibilidade?
Jamile Lima – A Interpres nasce como movimento antes de ser empresa. Ela surge da necessidade de romper um ciclo que sempre excluiu pessoas negras e pessoas surdas dos espaços de decisão, de trabalho e de pertencimento. Afrocentrada, construída por profissionais negros, pessoas surdas e diversas, a Interpres confronta diretamente a lógica que insiste em nos colocar no lugar da espera, da invisibilidade e da permissão, como se nosso talento precisasse de autorização para existir.
Desde o início, a empresa entende que acessibilidade não é serviço. É reparação, é justiça, é garantia de presença. Por isso, sua atuação se compromete tanto com a comunidade surda quanto com a valorização de profissionais negros que, mesmo formados e experientes, não encontravam espaço no mercado e eram lembrados apenas em novembro.
Ao mesmo tempo em que quebra barreiras linguísticas, a Interpres quebra barreiras estruturais. Ela assegura que pessoas surdas tenham acesso real à informação, à cultura, ao trabalho e à educação, enquanto garante que pessoas negras ocupem lugares de protagonismo, reconhecimento e dignidade.
A Interpres não traduz só língua. Ela traduz mundos. Ela cria rotas onde antes havia muros, constrói acessos onde antes havia silêncio e afirma existências que o mercado tentou limitar. É uma empresa viva, que pulsa inclusão e que se move para abrir portas para quem historicamente teve de lutar para atravessá-las.
Movimento ODS SC – De que forma as práticas de acessibilidade desenvolvidas pela Interpres contribuem, na prática, para o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável?
Jamile Lima – As práticas da Interpres se conectam diretamente aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável porque a nossa atuação nasce de um lugar que é, antes de tudo, compromisso histórico. Somos uma empresa afrocentrada, construída a partir das vivências de pessoas negras e surdas que sempre tiveram de lutar para ocupar espaços que nunca foram desenhados para nós.
Quando garantimos acessibilidade para a comunidade surda, fortalecemos o ODS 4, ao defender uma educação inclusiva que reconhece a diversidade linguística como direito, e não como favor. Ao colocar mulheres negras na liderança, reafirmamos o ODS 5, porque equidade de gênero só existe quando mulheres negras comandam, decidem e transformam.
A geração de trabalho digno para profissionais negros, surdos e diversos, valorizados não só em novembro, mas o ano inteiro, materializa o ODS 8 e confronta a desigualdade que atravessa o mercado de forma estrutural, dialogando diretamente com o ODS 10. A cada projeto acessível que entregamos em instituições públicas e privadas, reforçamos o ODS 16, criando ambientes mais justos, transparentes e comprometidos com os direitos humanos.
Como empresa que nasce da coletividade e se move em comunidade, a Interpres também fortalece o ODS 17, porque sabemos que transformação real só acontece quando é feita em rede. Mas é no ODS 18, Igualdade Étnico-Racial, que encontramos nossa identidade mais profunda.
Ela não é apenas uma referência. É o espelho da nossa existência. A Interpres existe porque o racismo estrutural criou barreiras e nós decidimos quebrá-las, porque profissionais negros foram invisibilizados e nós decidimos torná-los protagonistas, porque a ausência de pessoas negras em espaços de poder era regra e nós decidimos reinventar essa regra.
Por isso, quando falamos de acessibilidade, inclusão e gestão com propósito, estamos falando de um projeto de país que não separa língua, raça, território ou pertencimento. A Interpres vive os ODS no cotidiano, mas é o ODS 18 que nos atravessa por inteiro. Ele representa quem somos, por que existimos e para onde estamos abrindo caminho.
Movimento ODS SC – A Interpres é signatária e parceira do Movimento ODS SC. Como essa conexão fortalece a atuação da empresa e a sua gestão com propósito?
Jamile Lima – Estar como signatária do Movimento ODS SC coloca a Interpres dentro de uma rede que acredita na mudança real. Não em discurso bonito, mas em justiça estruturada. Isso fortalece nossa atuação porque legitima que inclusão, acessibilidade e equidade racial não são extras. São fundamentos.
Ao unir nossa história afrocentrada, nossa atuação em Libras, nossa militância por reconhecimento e dignidade com os compromissos da Agenda 2030 para Santa Catarina, construímos pontes entre luta e governança, entre comunidade e política institucional.
Essa conexão expande nosso alcance. Nos dá força, visibilidade, redes de apoio e compromisso com a sustentabilidade social, racial e humana. Em outras palavras, a Interpres deixa de ser uma empresa de acessibilidade para se afirmar como agente de transformação, e nosso propósito deixa de ser individual para se tornar coletivo, interseccional, plural e estruturante.
Movimento ODS SC – O Prêmio Ailema Pucú também valoriza o empreendedorismo feminino. Que mensagem você deixaria para outras mulheres que desejam empreender com impacto social?

Jamile Lima – O Prêmio Ailema Pucú, para mim, não é só uma premiação. É um deslocamento histórico. Uma mulher negra, neurodiversa, com TDAH e dislexia, sendo reconhecida dentro da Administração, um espaço que nunca foi desenhado para a gente.
Quando uma mulher negra chega aqui, não chega sozinha. Chega com a força de todas que vieram antes e de todas que ainda virão. É coletivo. É ancestral. É político.
Esse prêmio fala sobre o que significa afroempreender neste país. Porque, antes de falar de mérito, ele fala de sobrevivência. Fala de criar negócios quando o mercado não abre portas. Fala de sustentar excelência mesmo quando o mundo tenta limitar nossas possibilidades. Fala de afirmar que liderança negra existe, é competente e gera impacto real, mesmo sem permissão, e que a diversidade cognitiva também é potência na forma de pensar, criar e liderar.
Por isso, para as mulheres negras que querem afroempreender com impacto social, eu digo: não esperem validação para começar. A gente sabe que o mercado só lembra das nossas existências em novembro, e olhe lá. Mas o afroempreendedorismo não nasce de datas. Nasce de urgências.
Afroempreender é construir rota onde antes só havia muro. É responder ao apagamento com presença. É transformar nossa dor e nossas singularidades, inclusive neurodiversidade, TDAH e dislexia, em estratégia. É olhar para a comunidade surda, negra, periférica, diversa e afirmar: vocês pertencem.
É entender que nossos negócios não são apenas empresas. São movimentos vivos, tecnologias sociais e ferramentas de reparação.
O Prêmio Ailema Pucú reforça que nós, mulheres negras afroempreendedoras e diversas, não estamos apenas participando da economia. Estamos mudando a lógica dela.
Minha mensagem é essa: caminhem com coragem, estratégia e rede. Se fortaleçam entre mulheres. Criem seus próprios espaços. Não deixem ninguém decidir o tamanho do seu sonho. O futuro precisa da nossa visão, da nossa liderança, das nossas narrativas e da potência das nossas diferenças.
Porque quando uma de nós sobe, nenhuma sobe sozinha. E, quando uma de nós é reconhecida, todas avançam.
Movimento ODS SC – Após esse reconhecimento, quais são os próximos passos e desafios para a Interpres e para a sua atuação como liderança?
Jamile Lima – Depois desse reconhecimento, o prêmio não fecha um ciclo. Ele abre outro. Ele reforça minha responsabilidade como mulher negra, formada em Bacharelado em Letras/Libras, Pedagogia e Administração, mestranda em Gestão do Conhecimento, pesquisadora e afroempreendedora.
Atuo em um território onde nossas habilidades ainda enfrentam barreiras para serem vistas, ouvidas e valorizadas. A Interpres entra em uma nova fase, mais forte, afrocentrada e comprometida em transformar o mercado de acessibilidade para a comunidade surda e abrir portas para profissionais negros que historicamente tiveram suas vozes silenciadas.
Os próximos passos são claros e desafiadores. Ampliar nossa presença nacional, profissionalizar nossos processos e consolidar parcerias que coloquem a inclusão e o impacto social no centro das decisões. Não se trata apenas de crescimento. Trata-se de abrir caminho para que outros também possam caminhar.
Como liderança, carrego comigo a consciência de que minha trajetória não é obstáculo, mas força que molda meu jeito de pensar, criar e liderar. Cada desafio me faz enxergar caminhos que muitos não veem, me impulsiona a construir estratégias inovadoras e a transformar conhecimento em oportunidades reais.
Meu papel é garantir que a Interpres continue sendo um espaço de protagonismo negro, valorização da cultura surda e formação de intérpretes comprometidos, abrindo portas e mantendo nossa essência, nossa verdade e nossa potência.
