TRANSIÇÃO ENERGÉTICA JUSTA NO BRASIL ALÉM DO ODS 13

Carine Bergmann 29 de setembro de 2025
 TRANSIÇÃO ENERGÉTICA JUSTA NO BRASIL ALÉM DO ODS 13

Por Gisele Victor Batista, coordenadora de mobilização do Movimento ODS SC

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1 – O que é Transição energética e por que precisa ser “justa”?

    Transição energética é o processo de substituir gradualmente combustíveis fósseis, como petróleo, gás e carvão, por fontes de baixa emissão, como eólica, solar, biomassa e hidrelétrica. Essa mudança está no centro do esforço global de mitigação climática. O termo “baixa emissão” indica reduzir a intensidade de gases de efeito estufa por unidade de energia produzida. Já “descarbonização” significa reduzir o volume total de emissões de dióxido de carbono (CO₂) e outros gases poluentes na economia.

    A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estabeleceu, em 2015, as Diretrizes para uma Transição Justa, defendendo que a transição para economias sustentáveis não pode aprofundar desigualdades. O conceito inclui emprego decente, proteção social, qualificação profissional e diálogo social. Esse quadro deve orientar políticas públicas em direção à chamada economia de baixo carbono.

    2 – Onde o Brasil avançou

      O Brasil é um dos países com maior participação de fontes renováveis no setor elétrico entre as grandes economias. Em 2024, 88,2% da eletricidade veio de fontes renováveis, segundo o Balanço Energético Nacional. No ano anterior, o índice chegou a 93,1%, impulsionado pela expansão de usinas eólicas, solares e biomassa, além da base hidrelétrica consolidada.

      No campo regulatório, o país também avançou. A Lei 14.990/2024 criou o Programa de Hidrogênio de Baixa Emissão de Carbono, voltado à produção de H₂ a partir de eletricidade renovável. Já a Lei 14.993/2024 instituiu o Combustível do Futuro, que prevê mandatos graduais para o querosene sustentável de aviação (SAF) e para o diesel verde, além de diretrizes sobre captura e estocagem geológica de CO₂.

      A Política Nacional de Transição Energética (PNTE), aprovada em 2024, reconhece a necessidade de alinhar mitigação de emissões e desenvolvimento produtivo. Trata-se de uma moldura para coordenar políticas setoriais e instrumentos de longo prazo.

      3 – O dilema brasileiro: renovar e explorar

        Apesar das conquistas, o Brasil convive com sinais contraditórios. O Plano Decenal de Expansão de Energia 2034 (PDE 2034), aprovado em 2025, orienta investimentos de longo prazo, mas não incorpora metas explícitas de redução de combustíveis fósseis.

        Enquanto isso, a Petrobras prevê investir cerca de US$ 3 bilhões até 2029 na Margem Equatorial, onde pretende perfurar 15 poços. Em junho de 2025, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) leiloou 34 blocos exploratórios, incluindo áreas na Bacia da Foz do Amazonas. Essa estratégia levanta a questão: como manter a imagem de liderança em energia renovável e, ao mesmo tempo, expandir a exploração de petróleo e gás?

        4 – Pressão internacional por coerência

          O panorama global reforça a urgência. O Production Gap Report 2023 aponta que os governos planejam produzir 110% a mais de combustíveis fósseis em 2030 do que seria compatível com a meta de 1,5 °C. Ao mesmo tempo, o World Energy Investment 2025, da Agência Internacional de Energia (IEA), mostra que os investimentos em energia limpa já superam os destinados a fósseis, e tendem a dobrar nos próximos anos.

          Isso significa que os fluxos de capital já favorecem projetos de baixo carbono. Políticas nacionais desalinhadas podem encarecer financiamentos e comprometer a credibilidade diplomática em fóruns como a COP30, que acontecerá em Belém.

          5 – Por que a justiça precisa estar no centro

            A transição energética não ocorre em abstrato: afeta regiões produtoras de petróleo, trabalhadores das cadeias fósseis, populações de baixa renda e territórios com infraestrutura precária. Sem políticas para reduzir pobreza energética, investir em requalificação profissional e garantir acesso universal a energia limpa, a mudança pode gerar novos desequilíbrios. Nesse ponto, a OIT recomenda que políticas sociais e ambientais sejam integradas. Caso contrário, haverá grupos que acumulam benefícios e outros que absorvem os custos da transição.

            6 – Como a transição justa entrega ODS

              O sucesso da PNTE depende de sua capacidade de transformar ambição em indicadores claros, vinculados à Agenda 2030. Entre os ODS diretamente impactados, destacam-se:

              ODS 7 (Energia limpa e acessível): metas 7.1, 7.2 e 7.3;
              ODS 8 (Trabalho decente e crescimento econômico): metas 8.5 e 8.8;
              ODS 9 (Indústria, inovação e infraestrutura): meta 9.4;
              ODS 10 (Redução das desigualdades): meta 10.2;
              ODS 11 (Cidades e comunidades sustentáveis): meta 11.2;
              ODS 12 (Consumo e produção responsáveis): meta 12.c;
              ODS 13 (Ação contra a mudança global do clima): metas 13.2 e 13.a;
              ODS 16 (Instituições eficazes): meta 16.7;
              ODS 17 (Parcerias e meios de implementação): metas 17.3 e 17.17.

              Esses objetivos oferecem uma base prática para orientar investimentos, avaliar resultados e integrar justiça social ao planejamento energético.

              Conclusão

              O Brasil tem ativos relevantes: uma matriz elétrica limpa, novos instrumentos legais e um quadro político-institucional em construção. Mas precisa demonstrar coerência entre discurso e prática. Sem metas fósseis claras, sem salvaguardas sociais e sem transparência efetiva, o país corre o risco de projetar uma imagem verde apenas parcial.

              Ainda, a transição energética justa no Brasil vai além do ODS 13 (Ação Climática). Ela envolve o ODS 7 (energia limpa), ODS 8 (trabalho decente), ODS 9 (inovação e infraestrutura sustentável), ODS 10 (redução das desigualdades), ODS 11 (cidades sustentáveis), ODS 12 (consumo responsável), ODS 16 (instituições eficazes) e ODS 17 (parcerias globais). Portanto, trata-se de uma agenda climática, social e econômica, capaz de reposicionar o Brasil como protagonista em Belém na COP30 e nas próximas décadas de desenvolvimento sustentável.

              Fontes de pesquisa:

              EPE – EMPRESA DE PESQUISA ENERGÉTICA. https://www.epe.gov.br

              INTERNATIONAL LABOUR ORGANIZATION (ILO). https://www.ilo.org/global/topics/green-jobs/publications/WCMS_432859/lang–en/index.htm.

              IEA – INTERNATIONAL ENERGY AGENCY. https://www.iea.org/reports/world-energy-investment-2025. Acesso em: 10 set. 2025.