Um estudo publicado na revista SDGs Emerging Countries lança alerta sobre o impacto ambiental do descarte irregular de óleo de cozinha em corpos d’água, prejudicando o cumprimento do ODS 6 – Água Potável e Saneamento.
O artigo, intitulado “Tratamento da Água Contra Resíduos: A Contribuição das Políticas do 6º Objetivo de Desenvolvimento Sustentável”, é assinado pelos pesquisadores Thiago de Aguiar (UNIVILLE) — signatário do Movimento ODS SC — e Ruan Carlos dos Santos (UDESC-ESAG).
Óleo de Cozinha contamina rios e ameaça fauna e flora
A pesquisa teve como foco o impacto do descarte de óleo de fritura no Rio Comprido, em Joinville (SC). O óleo, muitas vezes despejado diretamente no esgoto ou nos rios, forma uma película que bloqueia luz e oxigênio, prejudicando plantas aquáticas, peixes e microorganismos essenciais para o ecossistema.
Mesmo pequenas quantidades de óleo comprometem o tratamento da água e geram sérios impactos ambientais.
Outros dados apontam poluição e são alarmantes em relação ao óleo de fritura
O pesquisador testou a água contaminada com diferentes concentrações de óleo de fritura usado (óleo jogado fora depois de cozinhar) para ver se ela fazia mal a um pequeno organismo aquático chamado Daphnia similis, que é como um “camarãozinho” muito sensível à poluição da água.
O resultado mostrou que mesmo uma pequena quantidade desse óleo pode ser tóxica para esses organismos, ou seja, pode matá-los. Thiago pode identificar que a concentração que matou metade dos organismos foi de aproximadamente 20,88% da amostra contaminada com óleo de fritura.
Isso indica que jogar óleo usado diretamente no meio ambiente (como em rios, lagos ou ralos) pode causar sérios danos à vida aquática. O óleo de fritura residual tem substâncias que, com o tempo e o uso, se tornam ainda mais tóxicas.
Em Joinville, cerca de 34% dos domicílios são atendidos pela rede de coleta e tratamento de esgoto, conforme dados da Companhia Águas de Joinville. A cidade tem como meta alcançar 90% de cobertura de esgotamento sanitário até 2033, segundo a Companhia Águas de Joinville. Em 2024, a cidade atingiu 50% de cobertura de redes coletoras de esgoto implantadas.
Projeto “De Gota em Gota” inspira soluções locais
Apesar do cenário desafiador, o estudo destaca soluções práticas. O projeto “De Gota em Gota”, na Escola Dr. Tufi Dippe, recolheu 768 litros de óleo usado em apenas três meses, mostrando que educação ambiental e participação da comunidade podem reduzir a poluição hídrica.
“Foi possível constatar que uma das maneiras para resolver o problema da poluição é o desenvolvimento de políticas e programas de conscientização, tanto do poder público como da iniciativa privada, que esclareça que a água é um recurso renovável, porém finito e cada vez mais escasso.”
Setor privado é peça-chave para o ODS 6
Embora o ODS 6 foque no acesso à água e saneamento, o estudo alerta que faltam metas claras para drenagem urbana e gestão de resíduos sólidos, que impactam diretamente a qualidade das águas.
No Brasil, o desafio ainda é enorme. Cerca de 35 milhões de pessoas não têm acesso à água tratada, e quase 100 milhões vivem sem rede de esgoto, revelando desigualdades profundas.
O estudo faz um alerta sobre o papel crucial do setor privado:
“Um registro importante acerca da implementação e do monitoramento do ODS 6 é o envolvimento dos agentes privados. O maior envolvimento com a Agenda 2030 está ainda no setor público e em entidades civis organizadas – ONGs, bem como em associações de profissionais – cujo poder de transformação é menor do que os grandes usuários privados da água. A adesão do setor produtivo consta em registros de eventos, estudos, discursos e práticas isoladas, embora importantes; contudo, parte desse setor mantém ainda posicionamentos contrários à sustentabilidade, o que se choca com os ODS, além de se opor a instrumentos das políticas ambiental e de recursos hídricos. Exemplos disso tem sido a forte oposição apresentada ao enquadramento de corpos d’água e à cobrança pelo uso da água (Lei nº 9.433/1997), assim como ao licenciamento ambiental (Lei nº 6.938/1981).”
Para avançar nas metas do ODS 6, os pesquisadores destacam que é fundamental aumentar o monitoramento ambiental, investir em educação ambiental e envolver o setor produtivo, garantindo água limpa e segura para o futuro.
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