Evento gratuito valoriza a história da Comunidade Quilombola Morro do Boi com exposição, oficinas, cinema, Maracatu e debates sobre ancestralidade e direitos.
Balneário Camboriú recebe o 1º Circuito Cultural Quilombola no dia 8 de novembro de 2026, das 9h às 17h30, no Teatro Municipal Bruno Nitz. Gratuito e aberto a todas as idades, o evento valoriza a história, a ancestralidade e os saberes da Comunidade Quilombola Morro do Boi, que faz parte da formação histórica e cultural da cidade.
A programação reúne exposição fotográfica, oficinas, cinema, Maracatu, palestras e roda de conversa. O público também poderá conhecer o site oficial da comunidade, criado para preservar e divulgar suas memórias, conquistas e manifestações culturais.
Mais do que apresentar a história do Morro do Boi, o Circuito dá protagonismo aos moradores e às lideranças quilombolas. A iniciativa promove o diálogo com a população e contribui para a valorização da identidade afro-brasileira, em sintonia com o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 18 (ODS 18) – Igualdade Étnico-Racial.
Para Sueli Marlete Leodoro, liderança da Comunidade Quilombola Morro do Boi, o evento representa uma oportunidade de aproximar a população da história e das vivências do território.
“Quero convidar todas as pessoas a participarem do Circuito Quilombola, no dia 8 de novembro, para conhecerem a nossa história e a nossa vivência. Isso é muito importante porque vai valorizar bastante a nossa comunidade”, afirma Dona Sueli.
A história do Quilombo Morro do Boi
A Comunidade Quilombola Morro do Boi integra a história de Balneário Camboriú desde muito antes de a cidade se consolidar como destino turístico. Sua trajetória atravessa gerações, reunindo memórias familiares, saberes tradicionais e experiências de resistência.
Registros do século XIX, histórias das famílias que viveram no território durante a primeira metade do século XX e transformações provocadas pela construção da BR-101 fazem parte dessa trajetória. Reconhecer essa história é compreender que a identidade de Balneário Camboriú também foi construída pela presença e pela contribuição da população afro-brasileira.
Para Marlon Andrei Grosskopf, proponente e coordenador executivo do Circuito, a iniciativa nasceu do reconhecimento da importância histórica e cultural da comunidade.
“Estamos fazendo esse projeto de coração, pois percebemos a riqueza e a essência da comunidade quilombola Morro do Boi, que veio mesmo antes dos prédios existirem aqui em Balneário Camboriú. Pois ali existe a história de uma comunidade com muita luta, garra, mas sempre com um sorriso no rosto”, destaca Marlon.
A realização do Circuito também ganha relevância diante das discussões sobre o reconhecimento e a garantia dos direitos territoriais da comunidade.
Em junho de 2026, o Decreto Federal nº 13.021 declarou de interesse social, para fins de desapropriação, imóveis abrangidos pelo território quilombola Morro do Boi, reconhecido pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) em uma área de 10,1086 hectares.
A medida representa uma etapa do processo de regularização fundiária, que segue em andamento rumo à futura titulação do território.
Memória, identidade e educação
A construção do Circuito Cultural Quilombola também é resultado de encontros e trajetórias pessoais conectadas à história da comunidade.

Para o professor João Eduardo Soares Siqueira, responsável pela direção artística e pesquisa do projeto, a relação com o Morro do Boi ultrapassa o trabalho acadêmico e se tornou parte importante de sua formação pessoal.
“A Comunidade Quilombola do Morro do Boi tem um lugar especial na minha vida e no meu coração. Quando comecei a ter contato com os estudos decoloniais na universidade, passei a me enxergar como ser humano de uma outra forma”, relata.
Com ascendência indígena, João conta que os estudos decoloniais contribuíram para ampliar sua compreensão sobre a própria identidade e a sociedade. Sua aproximação com a comunidade começou durante um estágio e, com o apoio de outras pessoas envolvidas na causa, evoluiu até a construção do Circuito Cultural.
“O que começou com um estágio, depois, com o apoio de pessoas valiosíssimas que encontrei pelo caminho, se tornou um Circuito Cultural”, explica.
Para o professor, participar da iniciativa também significa colocar seus conhecimentos e sua profissão a serviço de uma mobilização social que já existia muito antes de sua chegada à comunidade.
“Poder fazer parte dessa luta de forma prática e real é incrível pra mim”, afirma.
Essa conexão entre educação, memória e participação comunitária está presente em toda a programação. O evento reúne diferentes formas de expressão e conhecimento para ampliar o diálogo sobre identidade, ancestralidade, direitos e resistência.
Programação do Circuito Cultural Quilombola
A exposição fotográfica “A Rua dos Pretos”, com imagens produzidas por Leonel Tedesco em 2014 com moradores da comunidade, retorna em 2026 integrada a uma linha do tempo histórica.
A mostra reúne documentos, fotografias e memórias comunitárias que ajudam a contar a trajetória do Morro do Boi. A visitação acontece de 4 a 15 de novembro, na Galeria de Arte do Teatro Municipal Bruno Nitz, com visita guiada no dia 8.
Na manhã do evento, o público poderá participar de oficinas práticas para diferentes idades:
- 9h às 10h15: Oficina de Bonecas Abayomi, conduzida pela liderança comunitária Sueli Marlete Leodoro.
- 10h30 às 11h45: Oficina de Máscaras e Pintura Facial.
- Em diferentes horários: Oficina de Memória Viva, com participação livre e gravação de depoimentos que poderão integrar o Acervo Digital de Memória Oral.
As oficinas de Abayomi e de Máscaras têm 25 vagas cada. As inscrições são gratuitas, pelo Sympla, de 25 de outubro a 7 de novembro, com acesso pelo link na bio do Instagram @circuitoculturalquilombolabc.
Programação da tarde
Às 13h30, uma apresentação de Maracatu celebra a ancestralidade afro-brasileira com o som dos tambores em frente ao Teatro. Em caso de chuva, a atividade será realizada no interior do espaço.
A abertura oficial acontece às 14h, seguida das atividades:
- 14h20: palestra “História e Resistência”, com Sueli Marlete Leodoro, liderança da Comunidade Quilombola Morro do Boi.
- 14h50: exibição do curta-metragem “Comunidade Quilombola Morro do Boi — Entrelaçando Histórias”, com aproximadamente 13 minutos, e lançamento do site oficial da comunidade.
- 15h30: palestra “Colonialidade e Identidade”, com o professor João Eduardo Soares Siqueira, Sueli Marlete Leodoro e convidado.
- 16h: palestra “Direito antidiscriminatório, letramento racial e justiça socioambiental: território, cidadania e efetivação de direitos no contexto afro-catarinense”, com a advogada e professora da Univali, Dra. Flávia Cristina Oliveira Santos.
- 16h30: roda de conversa “Desafios, Movimentos Sociais e Políticas Públicas no Contexto Afro-Catarinense”, aberta ao público, ativistas e representantes institucionais. O vereador Eduardo Zanatta confirmou presença.
O encerramento acontece às 17h, com agradecimentos, coffee break e visita guiada à exposição.
Um legado para a comunidade
O 1º Circuito Cultural Quilombola foi pensado para gerar resultados que permaneçam depois do evento.
Uma das iniciativas é o lançamento do site oficial da Comunidade Quilombola Morro do Boi. O portal reunirá informações sobre sua história, conquistas, artesanato, projetos, fotografias, vídeos, entrevistas e trabalhos acadêmicos.
Outro destaque é o Acervo Digital de Memória Oral, que poderá receber depoimentos registrados durante a Oficina de Memória Viva. A proposta é transformar lembranças e narrativas em conteúdos acessíveis para moradores, estudantes, educadores e pesquisadores.
Para Dona Sueli, ampliar o conhecimento sobre a comunidade é fundamental para fortalecer sua identidade e garantir que suas histórias continuem sendo transmitidas às próximas gerações.
“Para quem já conhece, fica o convite para participar e valorizar ainda mais a nossa história. E para quem ainda não conhece, é uma oportunidade de se aproximar da comunidade e conhecer esse projeto lindo que está sendo construído”, reforça a liderança.
Ao reunir diferentes gerações, conhecimentos e expressões culturais, o Circuito busca fortalecer o reconhecimento da comunidade quilombola como parte viva da história de Balneário Camboriú.
Mais do que um evento, a iniciativa pretende ampliar espaços de escuta, preservar memórias e contribuir para que as histórias do Morro do Boi continuem sendo contadas por seus próprios protagonistas.
ODS 18 e igualdade étnico-racial: a conexão com o Circuito Quilombola
O 1º Circuito Cultural Quilombola de Balneário Camboriú também dialoga com o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 18 (ODS 18) – Igualdade Étnico-Racial, iniciativa proposta pelo Brasil para fortalecer o enfrentamento ao racismo, à discriminação e às desigualdades que atingem povos indígenas e afrodescendentes, incluindo comunidades quilombolas.
Apresentado pelo Brasil em 2023, o ODS 18 é uma proposta de adesão voluntária internacional, complementar aos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável originalmente estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU) na Agenda 2030.
A relação do Circuito com o ODS 18 aparece especialmente em duas metas: a preservação da memória e do patrimônio cultural e a promoção da educação antirracista.
A meta 18.5 trata da reparação de violações socioeconômicas e culturais, das perdas territoriais e dos impactos ambientais que atingem povos indígenas e afrodescendentes. Também contempla o direito à memória, à verdade e à justiça.
Entre seus desdobramentos, a meta 18.5.1 prevê a proteção do patrimônio cultural, artístico e religioso, além do resgate e da preservação das histórias ancestrais. Já a meta 18.5.2 aborda o respeito às formas de vivência, aos saberes e às expressões culturais dessas populações.
Ao reunir fotografias históricas, relatos de moradores, oficinas e um acervo digital de memória oral, o Circuito contribui para preservar e divulgar a trajetória da Comunidade Quilombola Morro do Boi.
A iniciativa também se conecta à meta 18.8, voltada à educação de qualidade e não discriminatória, ao respeito às culturas e histórias dos povos indígenas, afrodescendentes e quilombolas e ao fortalecimento da educação pública.
Seu desdobramento 18.8.2 prevê ações de educação antirracista e de valorização das histórias e culturas indígenas e quilombolas em currículos e estratégias formativas.
Nesse contexto, as palestras, oficinas, exibições audiovisuais e rodas de conversa do Circuito contribuem para ampliar o conhecimento da população sobre ancestralidade, identidade, resistência e direitos.
Ao colocar a comunidade como protagonista de suas próprias narrativas, o projeto demonstra como a cultura e a educação podem contribuir para a igualdade étnico-racial.
A iniciativa aproxima compromissos de desenvolvimento sustentável de ações concretas no território, valorizando a diversidade cultural e o reconhecimento da contribuição histórica das comunidades quilombolas para a sociedade brasileira.
Acessibilidade
O evento contará com intérprete de Libras nas principais atividades de palco. A exposição terá audiodescrição acessível por QR code, e o curta-metragem será exibido com legendas.
O Teatro Municipal Bruno Nitz também dispõe de estrutura de acessibilidade física.
Sobre o projeto
O 1º Circuito Cultural Quilombola de Balneário Camboriú é contemplado pela Lei de Incentivo à Cultura de Balneário Camboriú (LIC 2026, Edital nº 016/2025/FCBC).
Ficha técnica
- Proponente e coordenação executiva: Marlon Andrei Grosskopf.
- Direção artística e pesquisa: professor João Eduardo Soares Siqueira.
- Pesquisa de memória: Sueli Marlete Leodoro.
- Produção executiva e direção executiva da exposição: Dagma Castro.
- Fotografias: Leonel Tedesco.
- Assessoria de imprensa: Tatiele Rivera.
Serviço
1º Circuito Cultural Quilombola de Balneário Camboriú
Data: 8 de novembro de 2026, das 9h às 17h30.
Local: Teatro Municipal Bruno Nitz — Avenida Central, Balneário Camboriú (SC).
Entrada: gratuita, classificação livre.
Inscrições para oficinas: de 25 de outubro a 7 de novembro, pelo Sympla, com 25 vagas por oficina. Link disponível na bio do Instagram @circuitoculturalquilombolabc.
Exposição “A Rua dos Pretos” e Linha do Tempo: de 4 a 15 de novembro, na Galeria de Arte do Teatro. Visita guiada em 8 de novembro.
Acessibilidade: intérprete de Libras, legendas no curta-metragem e audiodescrição da exposição via QR code.
Texto: Tatiele Rivera
Edição: Carine Bergmann
Referência sobre os ODS: Observatório ODS 18 – Igualdade Étnico-Racial. Metas e Indicadores do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 18: Síntese do Processo de Construção. Universidade Federal do Sul da Bahia, 2025.
