Camboriú, Timbó e Criciúma adotam estratégias de prevenção, enquanto orientações nacionais e especialistas alertam que a preparação precisa envolver também habitação, meio ambiente, proteção social e segurança alimentar
Diante da possibilidade de chuvas acima da média e eventos extremos associados ao El Niño, municípios catarinenses começaram a reforçar ações de prevenção, monitoramento e preparação das comunidades. As iniciativas adotadas em Camboriú, Timbó e Criciúma mostram caminhos diferentes, que envolvem desde capacitações, simulados e organização de abrigos até manutenção da drenagem e articulação regional.
As experiências também revelam que não existe uma única solução para todos os territórios. Cada município possui características geográficas, sociais e econômicas próprias e precisa conhecer suas vulnerabilidades para definir como proteger a população.
Ao mesmo tempo, orientações publicadas por entidades municipalistas e a avaliação de especialistas indicam que a preparação não pode se limitar à mobilização de máquinas ou à resposta emergencial. Ela precisa alcançar o planejamento urbano, a proteção dos ecossistemas, a habitação, a assistência social, a agricultura e a participação comunitária.
Camboriú utiliza a educação como ponte com as famílias
Em Camboriú, a preparação é conduzida por um Comitê de Crise e Enfrentamento aos Eventos Extremos, instituído em junho de 2026. O colegiado está organizado em oito grupos de trabalho, que reúnem áreas da administração municipal, instituições públicas, sociedade civil e iniciativa privada.
A Secretaria Municipal de Educação integra o GT4, responsável por identificar as unidades escolares que poderão funcionar como abrigos para pessoas desalojadas ou desabrigadas. Com aproximadamente 20 mil crianças e estudantes atendidos, a rede também passou a ser utilizada para disseminar informações e conhecer a realidade das famílias.
Por meio dos canais de comunicação das escolas, a Secretaria encaminhou um formulário destinado a levantar informações que poderão orientar as ações municipais. A iniciativa mostra como a educação pode exercer três funções na gestão de riscos: comunicar medidas de autoproteção, ajudar a identificar vulnerabilidades e preparar estruturas para o acolhimento da população.
A Secretaria também promoveu, em parceria com o Instituto Federal Catarinense (IFC), duas formações conduzidas pela coordenadora nacional do Curso de Defesa Civil da instituição, professora Cleonice Beppler. Com o tema “Autoproteção: Protegendo a Si, Sua Família, a Escola e a Comunidade”, as atividades envolveram servidores, gestores escolares, secretários municipais e representantes de entidades religiosas.
A SME participou ainda do 2º Workshop El Niño, promovido pela Associação Catarinense de Meteorologia (ACMET), e integra o colegiado do Plano de Contingência da Educação da Associação dos Municípios da Região da Foz do Rio Itajaí (AMFRI).

“Os servidores da SME estão empenhados em contribuir, da melhor forma possível, para a proteção, a prevenção e o amparo das famílias do município, fortalecendo a cultura de prevenção e a capacidade de resposta da comunidade diante de eventos extremos”, informou a Secretaria Municipal de Educação, em resposta assinada por Sirléia Lopes Sebold.
Essas ações integram o plano “Camboriú em Alerta ao El Niño”, que reúne medidas relacionadas ao monitoramento, aos abrigos, ao atendimento da população, à logística de suprimentos e à comunicação comunitária.
O município também abriu cadastro para voluntários, que deverão ser preparados para apoiar o funcionamento dos abrigos, a distribuição de donativos, o cadastramento das famílias e outras atividades. Na infraestrutura, um convênio com o Governo de Santa Catarina viabilizou investimento de quase R$ 5 milhões na aquisição de duas escavadeiras hidráulicas e duas retroescavadeiras.
Timbó testa a resposta antes de uma emergência real
Em Timbó, a preparação combina planejamento, treinamento das equipes, monitoramento e articulação entre instituições.
Em 20 de maio de 2026, o município publicou o Decreto nº 8.100, declarando Estado de Alerta Climático diante das previsões associadas ao El Niño. A norma instituiu medidas preparatórias e indicadores para uma eventual decretação de situação de emergência ou calamidade pública.
O Plano Municipal de Contingência orienta a preparação e a resposta operacional. Em 2026, o instrumento também subsidiou a priorização de intervenções nos ribeirões dos Pomeranos, Vila Germer, Quintino e Dona Clara.
Uma das principais ações ocorreu em 1º de março, quando o município realizou o Simulado Geral de Proteção e Defesa Civil no bairro Mulde. O exercício reproduziu um cenário de deslizamento de terra com 20 vítimas e permitiu testar o acionamento das equipes, a aplicação do protocolo START, a comunicação entre os órgãos, o transporte e o encaminhamento hospitalar.

A operação envolveu a Defesa Civil municipal e estadual, o Corpo de Bombeiros Militar, as polícias Militar e Científica, o Exército Brasileiro, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), a UPA 24 horas de Timbó, o Hospital e Maternidade Oase, a Secretaria Municipal de Obras e outras instituições.
Segundo o relato institucional encaminhado à reportagem, o exercício permitiu “testar protocolos antes de uma ocorrência real, fortalecer a coordenação interinstitucional e aprimorar a capacidade municipal de proteger vidas”.
Ao simular uma ocorrência, o município pode identificar falhas antes que as equipes precisem atuar em uma situação real.
A capacidade operacional também foi ampliada com a incorporação de um drone DJI Matrice 30T, equipado com sensores ópticos e termográficos e utilizado em monitoramento, reconhecimento de áreas, buscas, alertas e apoio às operações.
Paralelamente, uma comissão intersetorial iniciou a implementação do PLANCON EDU-MR/SC nas unidades educacionais municipais, estaduais e particulares, com o objetivo de fortalecer a preparação das comunidades escolares para diferentes tipos de emergência.
Timbó também promoveu uma audiência pública sobre o El Niño em 8 de julho. No dia 23 do mesmo mês, a Defesa Civil realizou uma atividade com o Núcleo de Saúde e Segurança do Trabalho da Associação Empresarial do Médio Vale do Itajaí (ACIMVI).
Regionalmente, o município integra o Plano de Ação Climática do Médio Vale do Itajaí e Vale Europeu, desenvolvido pelo ICLEI América do Sul em parceria com a Associação de Municípios do Vale Europeu (AMVE) e o Consórcio Intermunicipal do Médio Vale do Itajaí (CIMVI), com apoio do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE).
A iniciativa reúne 17 municípios e busca produzir uma base comum para ações de mitigação, adaptação e acesso a financiamento climático.
Criciúma intensifica drenagem e articulação regional
No Sul do estado, Criciúma intensificou as ações nos bairros e cursos d’água considerados mais vulneráveis. As prioridades são definidas a partir do histórico de ocorrências, do Plano Municipal de Contingência e dos levantamentos que subsidiam a elaboração do Plano Municipal de Redução de Riscos.
Entre as regiões contempladas estão Grande Rio Maina, Quarta Linha, Sangão, São Roque, Paraíso e Grande Santa Luzia.
Segundo o diretor municipal de Defesa Civil de Criciúma, Alfredo Anselmo Gomes, o município mantém duas frentes de trabalho dedicadas à limpeza dos cursos d’água, além das equipes responsáveis pela drenagem urbana.
Aproximadamente 18 quilômetros de rios já receberam intervenções, enquanto a limpeza alcança uma média de 50 bocas de lobo por dia.
O órgão afirma que o trabalho realizado não corresponde à dragagem, pois busca retirar materiais que comprometem o escoamento sem aprofundar ou alargar o leito dos rios.

Em 1º de junho, um sobrevoo técnico percorreu trechos dos rios Sangão, Mãe Luzia e Araranguá até a região da barra do Rio Araranguá. Foram observados pontos com vegetação acumulada, sedimentos, árvores caídas e resíduos que podem prejudicar a passagem da água.
Como o sistema hídrico ultrapassa os limites de Criciúma, o município iniciou conversas com representantes de Araranguá, da Associação dos Municípios da Região Carbonífera (AMREC), da Associação dos Municípios do Extremo Sul Catarinense (AMESC) e da Defesa Civil estadual.
Um dos temas discutidos é a situação da barra do Rio Araranguá. Segundo a Defesa Civil de Criciúma, foi solicitada ao Estado uma avaliação sobre a abertura do canal principal de ligação com o mar. Uma eventual intervenção, porém, deverá ser submetida a estudos hidrológicos e ambientais, considerando os possíveis efeitos em diferentes pontos da bacia.
O Plano Municipal de Contingência também foi discutido com forças de segurança e entidades parceiras. O documento estabelece protocolos de monitoramento, alertas, socorro, assistência à população e recuperação das áreas atingidas, além de definir funções e fluxos de comunicação entre as instituições.
“Essa integração permite uma resposta mais rápida, organizada e eficiente, utilizando da melhor forma possível os recursos humanos, equipamentos e estruturas disponíveis no município e entre os parceiros”, afirmou Gomes durante a apresentação do plano.
A Defesa Civil funciona de maneira ininterrupta e acompanha as condições meteorológicas por meio do Centro de Controle Operacional.
“A Defesa Civil trabalha 24 horas, todos os dias do ano, sem interrupção. Quando temos alguma condição que aponta para um evento diferenciado, aumentamos o contingente e o número de viaturas nas ruas para fazer o atendimento à população”, explica o diretor.
Em 2025, até meados de dezembro, mais de 1.200 ocorrências foram atendidas no município. Esse histórico ajuda a identificar áreas críticas e orientar as prioridades.
O Ginásio Municipal está definido como abrigo principal e outros espaços podem ser ativados nos bairros, conforme a dimensão e a localização do evento.
Nas chuvas registradas em julho, o município não contabilizou ocorrências relacionadas aos cursos d’água atendidos. Embora a Defesa Civil avalie que as intervenções contribuíram para o resultado, serão necessários outros eventos e indicadores para demonstrar sua efetividade ao longo do tempo.
Orientações nacionais reforçam atuação integrada
Em maio de 2026, a Confederação Nacional de Municípios (CNM) publicou a Nota Técnica nº 12, com orientações para a preparação diante dos possíveis impactos do El Niño em 2026 e 2027.
O documento recomenda a atualização dos planos de contingência, o mapeamento das áreas vulneráveis, a definição de abrigos e rotas de evacuação, o monitoramento permanente e a comunicação antecipada com a população.
A nota também orienta que os municípios preparem suas equipes, organizem suprimentos e contratos emergenciais, realizem a manutenção dos sistemas de drenagem e incluam grupos vulneráveis e animais nos protocolos.
Os dados utilizados pela CNM ajudam a dimensionar a urgência da prevenção. Entre 2013 e 2025, os desastres causaram R$ 785,4 bilhões em danos no Brasil. No mesmo período, as transferências da União para ações de proteção e Defesa Civil somaram R$ 9,5 bilhões, o equivalente a apenas 1,2% dos prejuízos. Ao todo, 95,1% dos municípios brasileiros foram afetados.
Outro documento, publicado pela Associação Brasileira de Municípios (ABM), amplia a abordagem. O Guia Prático para Enfrentamento ao Super El Niño e Eventos Climáticos Extremos distribui responsabilidades entre o gabinete do prefeito e as áreas de Defesa Civil, saúde, assistência social, infraestrutura, meio ambiente e educação.
Além da preparação operacional, o guia recomenda recuperação de matas ciliares e margens de rios, proteção de nascentes, implantação de bacias de retenção, drenagem sustentável, controle da erosão e soluções baseadas na natureza. Na área social, inclui aluguel social, soluções habitacionais e reconstrução resiliente.
Intervenções podem reduzir ou transferir riscos
Para o biólogo, pesquisador e professor titular do Departamento de Botânica da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Paulo Horta, a nota da CNM representa um começo de diálogo, mas os municípios precisam avançar para uma visão integrada da adaptação climática.
“A nota não é perfeita, mas permite que os municípios se encaminhem, ou pelo menos deem os primeiros passos”, avalia.
Uma das preocupações apresentadas pelo pesquisador é a maneira como algumas ações de desassoreamento são executadas. Quando o sedimento retirado é depositado em uma das margens, a intervenção pode reduzir o extravasamento naquele ponto, mas direcionar um volume maior de água para o lado oposto.
“As ações de desassoreamento, do jeito que estão sendo feitas, reduzem o impacto em parte da planície de alagamento, mas podem potencializar o alagamento do outro lado”, alerta.
A remoção da mata ciliar e a alteração das margens também podem diminuir a proteção do solo, reduzir a infiltração, ampliar a erosão e agravar as inundações.
Por isso, limpeza, desassoreamento e dragagem não devem ser tratados como sinônimos nem apresentados automaticamente como soluções. As intervenções precisam considerar toda a bacia hidrográfica, os efeitos a montante e a jusante, a legislação ambiental e os riscos de transferir o problema para outra comunidade ou município.
Habitação precisa fazer parte da adaptação climática
Horta também destaca a necessidade de identificar as moradias expostas a deslizamentos e escorregamentos. Além do mapeamento, as famílias precisam saber quais sinais observar, quando deixar suas residências, quais rotas utilizar e onde buscar proteção.
Nos casos de vulnerabilidade elevada, o pesquisador defende a utilização preventiva do aluguel social e a construção de uma política de moradias resilientes.
“Dependendo do grau de vulnerabilidade, é recomendável que a Câmara Municipal e a Prefeitura proporcionem o aluguel social, com a remoção das pessoas”, afirma.
A proposta é identificar áreas menos expostas e buscar financiamento para programas habitacionais capazes de atender, em médio prazo, as famílias que não podem permanecer com segurança no local onde vivem.
Essa perspectiva transforma a habitação em parte da política climática. Em vez de retirar pessoas somente depois que suas casas forem atingidas, o poder público passa a agir quando os estudos técnicos indicam risco incompatível com a permanência.
Segurança alimentar também está ameaçada
A preparação dos municípios também precisa alcançar as áreas rurais. Chuvas intensas, erosão, inundações e interrupções nas estradas podem destruir cultivos, comprometer o escoamento da produção e afetar a renda das famílias.
Horta sugere a construção de uma política municipal de resiliência para os produtores rurais. Entre as possibilidades está o apoio à implantação de casas de vegetação em áreas seguras para proteger parte da produção de verduras e legumes.
A medida não elimina todos os riscos enfrentados pela agricultura, mas pode preservar alimentos, renda e abastecimento local durante períodos adversos. Em municípios pequenos, essa proteção é especialmente relevante porque a agricultura familiar abastece feiras, mercados, escolas e comunidades.
Prevenção deve se tornar política permanente
As experiências de Camboriú, Timbó e Criciúma mostram que municípios catarinenses começaram a se movimentar antes da emergência. Os casos reúnem educação, voluntariado, simulação, monitoramento, drenagem, abrigos e cooperação regional.
O desafio é garantir que essas iniciativas não desapareçam quando o alerta climático perder visibilidade. A preparação precisa ter orçamento, responsabilidades definidas, cronogramas, indicadores, transparência, participação social e revisão periódica.
Também é necessário avaliar não apenas quantas máquinas foram mobilizadas ou quantos quilômetros de rios receberam intervenções, mas se as ações reduzem efetivamente a exposição das pessoas, preservam os ecossistemas e não transferem o risco para outros territórios.
Essa agenda se conecta diretamente ao ODS 4 – Educação de Qualidade, pela formação para a autoproteção; ao ODS 11 – Cidades e Comunidades Sustentáveis, pela redução dos riscos urbanos e habitacionais; ao ODS 13 – Ação Contra a Mudança Global do Clima, pelo fortalecimento da adaptação; e ao ODS 17 – Parcerias e Meios de Implementação, pela cooperação entre governos, instituições, universidades e comunidades.
Os ODS ajudam a compreender que a resiliência não é responsabilidade exclusiva da Defesa Civil. Ela envolve escolas preparadas, moradias seguras, rios protegidos, agricultores fortalecidos, equipes treinadas e comunidades que sabem como agir.
A proteção começa muito antes da chuva. Começa quando o município conhece seus riscos, escuta a população e transforma prevenção em decisão política.
Referências
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TIMBÓ (Município). Relato institucional: El Niño, prevenção e Agenda 2030 — ações de contingência, prevenção e fortalecimento da resiliência climática em Timbó (SC). Contribuição encaminhada ao Movimento ODS Santa Catarina. Timbó, jul. 2026.
Entrevistas e comunicações pessoais
GOMES, Alfredo Anselmo. Diretor Municipal de Defesa Civil de Criciúma. Entrevista concedida a Carine Bergmann por mensagem de áudio. Criciúma, ago. 2026.
HORTA JÚNIOR, Paulo Antunes. Biólogo, pesquisador e professor titular do Departamento de Botânica da Universidade Federal de Santa Catarina. Entrevista concedida a Carine Bergmann por mensagem de áudio. Florianópolis, ago. 2026.
SEBOLD, Sirléia Lopes. Secretaria Municipal de Educação de Camboriú. Informações sobre o Comitê de Crise e Enfrentamento aos Eventos Extremos, a atuação da Educação e a preparação das comunidades escolares. Mensagem de correio eletrônico enviada a Carine Bergmann em 30 jul. 2026.
